
Diferenças entre o baralho cigano e o tarot:
Se eu coloco um Tarot e um Petit Lenormand lado a lado, a primeira diferença parece óbvia: num dos casos tenho, normalmente, 78 cartas; no outro, 36. Para mim, essa conta é a parte menos interessante.
O que realmente muda é a maneira como cada conjunto organiza aquilo que o leitor terá diante de si.
Neste artigo, quando falo em Baralho Cigano, estou me referindo ao Petit Lenormand de 36 cartas, que é o sistema com o qual trabalho. Sua história e relação com o nome Baralho Cigano constituem um assunto à parte. O mesmo vale para a origem histórica do Tarot. São formações distintas e não precisamos reuni-las artificialmente numa história comum para compará-las.
É nas cartas, e depois no modo de lê-las, que a diferença começa a ficar interessante.
O Tarot já chega dividido em famílias de cartas
Tomemos dois baralhos muito conhecidos entre cartomantes: o Tarot de Marseille e o Rider-Waite-Smith.
Em ambos encontramos quatro naipes, cartas numerais, figuras da corte, uma série de 21 trunfos e o Louco. Historicamente existem outros Tarots, inclusive com quantidade diferente de cartas, portanto não considero correto transformar o número 78 numa definição de tudo aquilo que já recebeu o nome Tarot. Para a comparação que faço aqui, porém, Marseille e Rider-Waite-Smith oferecem uma referência bastante concreta.
Quando retiro uma carta de um desses baralhos, ela não é apenas uma figura solta entre outras 77. Ela ocupa um lugar naquela organização.
Um Cinco de Copas pertence a um naipe e possui um número. Um Rei de Espadas ocupa outra posição dentro da mesma arquitetura. O Imperador pertence à série dos trunfos. Essas diferenças já estão presentes antes de eu decidir o que qualquer uma dessas cartas significa na pergunta que está sendo examinada.
No Petit Lenormand encontro outra construção.
São 36 cartas numeradas, organizadas em torno de motivos reconhecíveis: Cavaleiro, Trevo, Navio, Casa, Árvore, Nuvens, Serpente, Caixão, Buquê, Foice e assim por diante. Historicamente, essas cartas também aparecem relacionadas a cartas do baralho comum, embora o uso dessas correspondências varie entre leitores e tradições.
Não existe ali uma série equivalente aos trunfos. Também não existe uma divisão interna que corresponda, carta por carta, à arquitetura encontrada no Tarot.
Essa é uma diferença menos vistosa que dizer que um baralho é “mais profundo” e o outro “mais objetivo”, mas é uma diferença que de fato está nas cartas.
O desenho de uma carta também não funciona sempre do mesmo jeito
Há outra comparação comum que considero ruim: Tarot teria imagens complexas; Lenormand teria símbolos simples.
Basta colocar um Marseille e um Rider-Waite-Smith sobre a mesa para perceber o problema dessa explicação.
Pense no Três de Espadas.
Num Tarot de Marseille, tenho diante de mim três espadas organizadas graficamente, além dos elementos ornamentais da carta. Durante a leitura entram o número, o naipe, a disposição das espadas e a relação daquela carta com as demais.
No Rider-Waite-Smith, o mesmo Três de Espadas apresenta um coração atravessado pelas três espadas sob um céu carregado. Agora existe uma cena. Ela acrescenta imediatamente uma situação visual que não estava presente daquela forma no Marseille.
Isso não torna automaticamente uma carta melhor que a outra. Muda o material com que o leitor trabalha.
Waite fez essa escolha também nas demais cartas numerais de seu baralho: quase todas receberam composições figurativas. No Marseille, as cartas numerais continuam organizadas de outra maneira. O próprio Tarot, portanto, já impede que se fale de uma única forma de “imagem do Tarot”.
Quando chego ao Lenormand, encontro outra experiência.
A carta 3 é o Navio. Posso ter dezenas de edições do baralho, com navios completamente diferentes entre si, mas não costumo fazer depender a leitura da cor das velas, do estilo da embarcação ou da maneira como o artista pintou o mar.
O motivo continua sendo o Navio.
Isso tem consequências importantes no meu modo de ler porque não fico apenas diante da imagem perguntando quantas interpretações consigo extrair dela. Muito rapidamente preciso saber o que aquele Navio está fazendo ao lado das outras cartas.
É aí que o Lenormand começa, para mim, a mostrar uma diferença mais importante do que suas 36 cartas.
O Lenormand trabalha por combinações e o Tarot não?
Essa afirmação aparece com frequência e, à primeira vista, parece uma ótima maneira de separar os dois sistemas.
O problema é que ela não se sustenta muito bem.
Cartas de Tarot também são lidas em relação umas com as outras. Isso não é invenção recente. No século XVIII, Etteilla já considerava posição, sequência e relações entre as cartas. No início do século XX, Waite escrevia explicitamente sobre cartas cujo sentido poderia ser modificado pelas cartas vizinhas e pela posição que ocupavam numa sequência.
Também encontramos relação entre cartas muito cedo na linhagem que daria origem ao Petit Lenormand. Nas instruções oraculares preservadas com o Spiel der Hoffnung, todas as 36 cartas eram colocadas sobre a mesa e a leitura considerava as cartas situadas ao redor de uma carta de referência.
Ou seja: relacionar cartas não pertence exclusivamente ao Lenormand.
Isso me parece importante porque uma diferença verdadeira pode desaparecer quando tentamos explicá-la com uma diferença falsa.
Se eu disser que no Tarot interpreto cartas e no Lenormand interpreto combinações, não estou descrevendo corretamente aquilo que faço com nenhum dos dois.
Nos dois casos olho para o conjunto.
O que muda é o modo como esse conjunto interfere na leitura de cada carta.
Onde percebo a diferença depois de trabalhar com os dois
No Tarot, uma carta costuma conservar para mim uma autonomia considerável.
Ela está cercada por outras cartas e seu sentido pode mudar bastante por causa delas, mas continuo reconhecendo naquela carta um campo próprio de interpretação. Posso voltar a ela, examiná-la novamente, reconsiderar sua posição e perceber outro aspecto que antes não havia chamado minha atenção.
Uma carta pode confrontar outra. Pode explicar outra. Pode tornar uma possibilidade mais provável e outra menos adequada. Ainda assim, cada uma continua trazendo um conjunto relativamente amplo de elementos para a leitura.
Com o Lenormand, meu procedimento é diferente.
Uma carta isolada também possui possibilidades. O Navio não significa uma única coisa em todas as perguntas. A Casa tampouco. O Cão, o Livro, os Caminhos ou a Âncora precisam ser lidos dentro daquilo que está sendo examinado.
Mas, quando outra carta aparece ao lado, não costumo simplesmente colocar os dois significados sobre a mesa e somá-los.
A segunda carta começa a limitar a primeira.
Uma terceira pode limitar novamente o que ainda restou.
É um processo muito mais próximo, na minha prática, de especificar uma informação do que de acumular sucessivamente novos campos de significado.
Essa distinção demorou algum tempo para se tornar evidente para mim porque os dois sistemas permitem relações entre cartas. Visto de fora, alguém poderia simplesmente dizer que ambos fazem “combinações”.
Depois de trabalhar com os dois, a questão para mim passou a ser outra: quanto de uma carta continua disponível depois que a carta seguinte entra em cena?
No Tarot, em geral, preservo mais daquela autonomia inicial.
No Lenormand, sou mais severo com as possibilidades que precisam ser descartadas.
Essa é uma diferença da minha forma de trabalhar. Não a apresento como uma lei histórica do Petit Lenormand nem como regra que todo cartomante deva seguir. Há diferentes tradições de leitura, tanto no Tarot quanto no Lenormand, e os próprios registros históricos mostram que método impresso e prática de um leitor não são necessariamente a mesma coisa.
É justamente por isso que considero inadequado tentar definir um sistema inteiro apenas por uma técnica específica.
Por que o Baralho Cigano ganhou fama de ser mais “objetivo”?
Eu mesmo já utilizei essa palavra muitas vezes para explicar o Lenormand, mas hoje considero necessário dizer melhor o que ela pode significar.
Não conheço fundamento para afirmar que um baralho seja, por natureza, capaz de produzir respostas mais objetivas ou mais precisas que outro. O fato de as cartas possuírem motivos reconhecíveis também não resolve isso sozinho.
O que existe, na minha experiência, é um comportamento diferente durante a leitura.
Se uma carta abre algumas possibilidades e a seguinte elimina parte delas, o campo vai ficando progressivamente menor. Para quem acompanha a leitura, isso pode produzir a impressão de que o Lenormand “vai direto ao assunto”.
Mas essa impressão decorre do modo como estou utilizando as relações entre as cartas.
Não existe dentro da carta uma propriedade chamada objetividade.
Essa distinção também evita outro erro: transformar o Tarot no oposto e chamá-lo de “mais profundo”.
Profundidade não é uma categoria muito útil para comparar baralhos.
Um assunto simples pode exigir uma leitura trabalhosa. Uma questão aparentemente ampla pode acabar dependendo de um detalhe extremamente concreto. Não vejo por que atribuir essas características antecipadamente ao sistema que será utilizado.
A pesquisa histórica também não sustenta a velha divisão segundo a qual o Tarot trataria questões interiores ou elevadas enquanto o Lenormand ficaria encarregado da vida cotidiana. A literatura cartomântica do próprio Tarot contém dinheiro, casamento, negócios, casa, trabalho, viagens, propriedade e muitos outros assuntos absolutamente comuns.
A mesma pergunta pode ser feita aos dois
Se alguém me apresenta uma questão de relacionamento, posso trabalhar com Tarot ou Lenormand.
O mesmo vale para uma decisão profissional, dinheiro, uma negociação, uma mudança, um conflito ou uma expectativa sobre aquilo que pode acontecer.
Não separo previamente os assuntos em duas listas.
Isso não significa que trocar de baralho seja indiferente.
Se faço a mesma pergunta com Tarot e Lenormand, estou mudando o sistema com que vou construir a leitura. As cartas disponíveis são outras, a organização entre elas é outra e a maneira como costumo trabalhar essas relações também muda.
Esse ponto é mais importante, para mim, do que decidir se um baralho pertence ao “psicológico” e o outro ao “material”.
Ambos podem chegar ao mesmo problema humano.
O caminho até a interpretação não precisa ser o mesmo.
É também por esse motivo que não considero produtivo ensinar o Lenormand como se fosse apenas um Tarot reduzido a 36 cartas, nem trabalhar com Tarot tentando obrigá-lo a se comportar como Lenormand.
Cada sistema precisa ser conhecido pelo que oferece e pela tradição de leitura com a qual o cartomante decidiu trabalhar.
No caso específico do Petit Lenormand, desenvolvo melhor a relação entre imagens e cartas na página sobre leitura do Baralho Cigano.
Tarot ou Baralho Cigano: qual é o melhor?
Continuo achando que essa pergunta tem uma resposta simples: não há um vencedor.
Se eu estiver comparando dois sistemas diferentes, o fato de um deles organizar melhor determinado tipo de leitura para mim não transforma essa experiência em superioridade universal.
Também não acredito que conhecer mais baralhos torne automaticamente alguém um leitor melhor. É possível conhecer muitos sistemas superficialmente e conhecer um único sistema muito bem.
Normalmente utilizo Tarot e Lenormand em minhas consultas porque trabalhei tempo suficiente com os dois para que cada um tivesse um lugar real na minha prática. Isso é diferente de colecionar métodos ou de trocar de baralho apenas porque mudou o assunto da pergunta.
Ao longo dos anos, fui percebendo inclusive que há momentos em que mudar de sistema acrescenta algo ao trabalho e outros em que apenas repetiria, com outras cartas, aquilo que já estava sendo visto.
Essa relação entre os dois pertence a outra discussão. Trato dela em Consultar o Baralho Cigano: o Lenormand dentro do Tarot Analítico.
Aqui, a diferença que considero mais importante pode ser resumida de maneira menos chamativa, mas também mais fiel ao que encontro sobre a mesa: Tarot e Petit Lenormand não se distinguem porque um seria profundo e o outro objetivo. Distinguem-se pela maneira como suas cartas são construídas, organizadas e, sobretudo, pelo modo como essas diferenças passam a participar da leitura.