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Pode-se confiar no tarot?

Quando uma leitura de tarot merece confiança?

Antes de responder à pergunta sobre quando uma consulta de tarot é confiável, é preciso separar duas questões:

  • Saber se o tarólogo é de confiança diz respeito ao profissional, ao seu método de trabalho e à sua experiência.
  • Saber se uma leitura merece confiança exige examinar o que foi afirmado e verificar se a interpretação permaneceu dentro dos limites interpretativos.

É desse segundo ponto que tratarei neste artigo. Procurarei explicar como funciona uma leitura de tarot sob o aspecto prático e o que permite pensarmos em uma consulta que efetivamente atenda às expectativas de confiabilidade e ética.

Há pouco tempo, atendi um casal que decidiu realizar um atendimento para avaliar o relacionamento afetivo. Eles não queriam propriamente saber se permaneceriam juntos, mas compreender por que diferenças de temperamento, antes suportáveis, haviam se transformado numa fonte constante de atrito.

Os dois falavam com desenvoltura sobre a relação. Bastava, porém, que um deles começasse a explicar um conflito para que o outro interrompesse, corrigisse algum detalhe ou apresentasse outra versão. Em poucos minutos, percebi que a dificuldade não estava apenas no que acontecia entre eles. Estava também na necessidade que cada um tinha de proteger a própria interpretação dos acontecimentos.

Quando a Torre apareceu, ambos olharam para a carta antes que eu pudesse dizer qualquer coisa.

— Então o relacionamento vai acabar.

A conclusão surgiu pronta. Não vinha da posição ocupada pela carta, da pergunta feita ou das relações presentes no jogo. Vinha da imagem e do medo que ela provocou.

A Torre havia se transformado em separação.

Em seguida, começou uma discussão quase involuntária. Um acusou o outro de estar levando a relação ao fim. O outro respondeu que a carta apenas confirmava aquilo que já vinha suportando. O que começara como uma consulta conjunta dividiu-se em dois discursos de defesa, cada qual tentando provar que, se a construção realmente desabasse, a culpa pertenceria ao lado oposto.

Precisei interrompê-los e pedir que tomassem um pouco de água.

A situação tinha algo de grave e, ao mesmo tempo, de involuntariamente engraçado. A Torre estava sobre a mesa, mas os dois haviam acabado de erguer novas paredes diante dela.

O que a carta da Torre estava mostrando?

Depois que se acalmaram, retomamos a carta. Naquele jogo, a Torre não ocupava a posição de resultado. Surgia como um movimento necessário diante da dificuldade levada à consulta. Eu não poderia tratá-la como anúncio do desfecho sem desconsiderar a própria disposição das cartas.

A imagem falava de ruptura. Uma torre que cai não é uma figura de continuidade serena. Há perda de sustentação, exposição, desordem e queda. Ainda faltava descobrir o objeto dessa ruptura.

O que, naquela situação, precisava cair?

Poderia ser a maneira como os dois discutiam, a necessidade de vencer cada conversa ou as posições rígidas das quais nenhum deles conseguia descer sem sentir que havia perdido.

Ao longo da consulta, tornou-se cada vez mais evidente que ambos haviam construído uma espécie de fortaleza. Cada um se protegia dentro de suas certezas, vigiava as palavras do outro e reagia a qualquer discordância como se ela ameaçasse toda a estrutura.

Não faltava sentimento entre eles. Isso havia ficado evidente desde o início da consulta e era, justamente, uma das razões pelas quais haviam procurado o atendimento. As cartas apontavam esse fato com clareza.

A carta mostrava que aquela forma de convivência já não conseguiria permanecer intacta. Para que a relação encontrasse outra possibilidade, seria preciso demolir parte do que os dois haviam construído para se proteger.

Isso não retirava da Torre sua dureza. Baixar as defesas exigiria que ambos reconhecessem comportamentos que preferiam atribuir exclusivamente ao outro. Exigiria também abandonar a segurança oferecida pelo próprio argumento.

A torre que precisava ruir era o encastelamento.

A reação do casal ajudou a tornar isso visível. Diante de uma carta que apresentava uma construção em queda, os dois se defenderam, atacaram e se fecharam em versões incompatíveis. A imagem da Torre não estava apenas impressa no baralho. Ela se repetia, de outra forma, na conversa que acontecia à mesa.

Foi possível explicar a interpretação sem pedir que aceitassem minha palavra por confiança ou autoridade. A carta mostrava uma estrutura que perdia sustentação. A pergunta dizia respeito à convivência. A posição indicava algo que precisava ser enfrentado. E o modo como os dois reagiram revelava a construção rígida que já não servia de abrigo: havia se tornado um obstáculo para o relacionamento.

A carta não faria o trabalho no lugar deles. Não havia promessa de mudança nem garantia de que conseguiriam permanecer juntos. Ela tornou o problema mais nítido e deslocou a conversa. Em vez de procurarem imediatamente o culpado por uma futura separação, começaram a observar as paredes que cada um havia levantado.

O que existe numa imagem do tarot?

A força das imagens do tarot está na possibilidade de entrar em contato com situações muito diferentes sem perder completamente sua identidade.

A Torre continua sendo uma construção elevada, uma posição protegida, algo que se acreditava sólido e que deixa de se sustentar. Pode participar de uma separação, da queda de uma autoridade, do fracasso de um projeto, da perda de uma certeza ou do rompimento de uma defesa. Em todos esses casos, havia alguma construção que já não conseguia continuar da mesma maneira.

Interpretar não consiste em retirar uma palavra da carta e aplicá-la à primeira situação disponível. É preciso observar o que aquela imagem alcança dentro da pergunta.

Os primeiros baralhos de tarot conhecidos surgiram na Itália renascentista, num ambiente cultural que representava virtudes, autoridades, mudanças da fortuna, triunfos, quedas e passagens da vida. Muitas coisas nos separam daquele mundo, mas suas imagens ainda encontram experiências reconhecíveis e reverberam até hoje, pois as experiências humanas, em essência, são sempre muito semelhantes.

Continuamos lidando com poder e limite, escolha e consequência, proteção e aprisionamento. Ainda vemos posições se elevarem e caírem. Ainda construímos coisas que, em algum momento, a exemplo da carta da Torre, acabam por ruir, e isso nem sempre é algo ruim; muitas vezes é até libertador.

Eu não crio a Torre quando ela surge em uma leitura. Recebo uma imagem que já traz consigo a ideia de altura, construção, proteção e queda. A minha responsabilidade se dá no modo como relaciono essa imagem à vida de quem consulta.

A carta tem limites. A Torre não pode transformar-se em tranquilidade apenas porque essa resposta seria mais confortável. Ao mesmo tempo, “ruptura” ainda é uma palavra incompleta. Ruptura de quê? Queda de qual construção?

Com a Morte acontece algo semelhante. A palavra “fim” pode levar imediatamente à ideia de separação, demissão ou fracasso, mas ainda é preciso identificar o que termina. Pode ser uma relação, uma função, uma expectativa ou uma maneira de viver determinada situação. O encerramento permanece; seu objeto precisa ser reconhecido no jogo.

Em que sentido uma leitura pode merecer confiança?

Na consulta daquele casal, o problema começou quando “ruptura” se transformou numa sentença completa. A carta ainda não havia sido relacionada à pergunta, mas já havia produzido uma condenação. A partir dela, os dois passaram a procurar o responsável pela futura separação.

Naquele jogo, a Torre precisava ser situada. Sua dureza permanecia, mas a posição em que apareceu não autorizava que eu a apresentasse como resultado do relacionamento. Ela apontava para uma construção que precisava cair para que a situação pudesse se modificar.

Uma leitura pode merecer confiança quando esse caminho fica visível. A interpretação precisa manter contato com a carta, responder à pergunta e respeitar a função que ela ocupa no jogo. Também deve conservar a medida do que foi afirmado.

Uma possibilidade não pode reaparecer depois como promessa. Uma condição não deve ser esquecida para que a resposta pareça mais precisa. E uma afirmação categórica não pode ser reduzida a simples hipótese quando os acontecimentos a contradizem.

A conversa pode aprofundar uma interpretação, revelar uma relação que ainda não estava clara ou corrigir um entendimento mal formulado. O sentido, porém, não pode mudar continuamente apenas para acomodar qualquer resultado. Quando isso acontece, já não existe uma explicação que possa ser retomada e examinada. Existe uma resposta ajustada depois dos fatos.

A confiança possível numa leitura não depende de aceitar que o tarot seja infalível. Surge quando a imagem impõe limites à interpretação, a pergunta delimita seu uso e aquilo que foi explicado continua reconhecível mais tarde, sem alterações por conveniência.

Naquela consulta, seria possível discordar da leitura da Torre como encastelamento. Ainda assim, o raciocínio poderia ser acompanhado: havia uma construção na carta, uma pergunta sobre convivência, uma posição que indicava movimento necessário e um casal que, diante do medo, levantava paredes e se defendia por meio de acusações.

“Vai haver uma separação” não oferecia o mesmo caminho. Era apenas a reação imediata ao susto causado pela imagem.

Depois de algum tempo, a pergunta deixou de ser qual dos dois destruiria o relacionamento. Eles começaram a considerar o que cada um havia construído para se proteger e que agora os impedia de chegar ao outro.

A Torre manteve seu sentido de queda. O que precisou ser examinado foi o objeto da queda.

Quando os dois viram a carta, perguntaram quem levaria a relação ao fim. Mais tarde, conseguiram formular outra pergunta: quais paredes precisavam derrubar para que ainda fosse possível conversar?

A carta permaneceu a mesma.

Uma leitura merece confiança quando pode ser explicada, examinada e conservada sem que suas afirmações sejam alteradas depois. Naquela mesa, a Torre continuava falando de queda. Antes de anunciar o fim da relação, porém, era necessário descobrir o que já não podia continuar de pé.

Responsabilidade Editorial

Fernando

Fernando é o responsável pelo Mântica Rhom e atua profissionalmente com Tarot e Cartomancia desde 1996. Desenvolveu o Tarot Analítico, método de interpretação contextual que relaciona os símbolos das cartas à pergunta e à situação concreta, examinando contradições, tendências e limites de cada leitura. Embora as dinâmicas de relacionamento estejam entre as demandas mais recorrentes, sua atuação abrange decisões, conflitos, mudanças e outras questões da vida, com neutralidade, responsabilidade e sem promessas deterministas.

Consulta de Tarot Mântica Rhom - Fernando Tarólogo Cartomante - Av. Paulista, 2071, São Paulo - SP

Os critérios éticos e a fundamentação deste trabalho estão detalhados em nossa Metodologia.