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Consultar o Baralho Cigano: o Lenormand dentro do Tarot Analítico

Consultar baralho cigano
O Jogo do Baralho Cigano

Quando alguém chega a uma consulta, a vida que pretende compreender não começa diante das cartas.

A relação já existe. Houve conversas, silêncios, aproximações, escolhas, talvez promessas que se cumpriram e outras que perderam força com o tempo. Uma situação profissional traz consigo decisões anteriores, compromissos assumidos, possibilidades que foram aproveitadas e outras que deixaram de existir. Mesmo uma pergunta aparentemente simples sobre o futuro nasce dentro de circunstâncias que já têm alguma forma.

As cartas chegam depois.

Essa anterioridade da realidade em relação à consulta parece óbvia, mas se tornou uma das questões mais importantes do meu trabalho. Estamos sempre tentando compreender aquilo que vivemos e, justamente porque vivemos dentro da situação, não a observamos como quem está fora dela. Participamos dela. Temos interesses, lembranças, expectativas, receios; esperamos determinadas coisas das pessoas e de nós mesmos. Aquilo que aconteceu se mistura ao que pensamos sobre o que aconteceu e ao que gostaríamos que acontecesse a partir dali.

Ao longo dos anos, fui percebendo que uma leitura só conserva alguma utilidade enquanto não perde essa diferença de vista.

Comecei a estudar Tarot no final dos anos 1980. Tive contato com o Baralho Cigano ainda naquele período, embora o estudo mais sistemático do Lenormand só tenha vindo em meados da década seguinte. Quando passei a atender profissionalmente, em 1996, algumas questões que antes eram sobretudo intelectuais começaram a aparecer todos os dias diante de situações concretas. Uma delas permaneceu: quanto mais rica se torna uma linguagem simbólica, maior também é a responsabilidade de não permitir que a interpretação se afaste da realidade que deveria ajudar a compreender.

Esse problema participou da formação do Tarot Analítico. Anos depois, foi também nele que o Lenormand encontrou uma função que eu não havia previsto quando conheci o Baralho Cigano.

Estar onde se está

Há uma dificuldade em reconhecer a própria posição enquanto a situação ainda está acontecendo.

Não se trata simplesmente de ignorar fatos. Podemos conhecer muitos deles e ainda assim não perceber bem a situação que formam.

Sabemos que alguém se afastou, mas continuamos relacionando esse afastamento à pessoa que conhecíamos meses antes. Sabemos que determinada possibilidade profissional depende de condições que nunca chegaram a existir, mas ela permanece interiormente como se estivesse apenas aguardando uma ocasião favorável. Uma relação pode continuar ocupando um lugar enorme na vida de alguém mesmo depois que seus acontecimentos concretos se tornaram escassos.

Nada disso torna o desejo, a esperança ou a lembrança falsos. Eles são reais enquanto partes da experiência de quem os vive. O que precisa permanecer claro é de que maneira são reais.

Desejar uma reconciliação é um acontecimento interior verdadeiro. Não informa, por si mesmo, a disposição da outra pessoa. Temê-la perdida tampouco demonstra que a relação terminou. Uma explicação pode organizar de modo convincente muitos acontecimentos e ainda precisar ser revista diante de um fato que não cabe nela.

Essa distinção parece simples quando formulada abstratamente. Dentro da própria vida, costuma ser muito menos simples.

Uma interpretação mantida durante muito tempo pode passar a orientar a maneira como novos acontecimentos são compreendidos. Um acontecimento novo pode deixar de ser realmente novo porque imediatamente recebe um lugar na explicação anterior. Não é necessário supor autoengano. Basta que a interpretação anterior passe a pesar mais do que os acontecimentos que deveriam poder corrigi-la.

A coerência dessa história, porém, não altera aquilo que ocorreu. A realidade da questão inclui os acontecimentos, as possibilidades que não se concretizaram, aquilo que escolhemos e as escolhas que outras pessoas fizeram independentemente de nós; as condições que podemos modificar e aquelas diante das quais nossa vontade encontra um limite. Inclui ainda as consequências das decisões antigas, mesmo quando já não pensamos nelas, e o tempo consumido pelas decisões que adiamos.

Esse último aspecto me parece especialmente importante. Esperar também acontece na realidade. Uma espera de seis meses ocupa seis meses de uma vida. Há situações em que aquilo que não fazemos começa a produzir consequências tão concretas quanto aquilo que fazemos.

Por isso, quando penso na estrutura de uma questão, não estou pensando numa soma de fatos isolados. Estou pensando na posição que alguém efetivamente ocupa dentro de um conjunto de relações que já possui história, direção, limites e consequências.

Estar presente nessa situação não significa resignar-se a ela. Pelo contrário: só podemos agir sobre aquilo que conseguimos reconhecer com alguma fidelidade. A ação começa no real disponível, não na vida que desejaríamos já ter diante de nós.

O que o Tarot tornou visível para mim

Foi a prática com o Tarot que começou a dar forma a essa preocupação.

Uma pessoa raramente chega sem nenhuma interpretação sobre aquilo que vive. A própria pergunta já revela uma maneira de organizar a situação. Certos acontecimentos foram considerados importantes, outros talvez tenham ficado ao fundo; algumas relações pareceram evidentes; determinadas possibilidades adquiriram mais peso.

Isso é inevitável: toda pergunta já constitui um recorte da situação.

O problema surge quando o recorte passa a ser confundido com o todo.

Uma configuração de Tarot pode alterar esse enquadramento porque introduz relações simbólicas que não reproduzem necessariamente a organização anterior da pergunta. Algo que parecia lateral adquire peso. Duas partes da história até então pensadas separadamente passam a ser consideradas em conjunto. Uma convicção pode perder consistência. Em outros casos, alguma coisa que o consulente já percebia, mas ainda não conseguia integrar ao restante da situação, encontra uma forma pela qual pode ser examinada.

Esse movimento foi se tornando central para mim.

A palavra analítico, quando comecei a utilizá-la para nomear meu método, referia-se à necessidade de distinguir aquilo que chega misturado. Essa distinção só tem valor se permitir voltar a perceber o conjunto com maior clareza.

Uma intenção não realizada ocupa um lugar diferente de uma decisão já tomada. O comportamento de outra pessoa não se confunde com a explicação que construímos para ele. Uma condição necessária para determinado acontecimento pode simplesmente não existir. Há coisas conhecidas, coisas inferidas e regiões inteiras de uma situação sobre as quais ainda não dispomos de informação suficiente.

Quando essas diferenças desaparecem, aumenta a facilidade de produzir uma interpretação coerente e diminui a possibilidade de saber exatamente o que essa interpretação está afirmando.

Com a prática, porém, apareceu também o problema contrário.

Na minha prática, a riqueza simbólica do Tarot facilita a abertura de relações entre diferentes aspectos da questão. Uma carta pode remeter a uma narrativa mítica, um conflito, uma passagem, uma qualidade de ação; pode modificar o sentido de outra carta e ser modificada por ela. Essa amplitude pode ajudar a romper o enquadramento estreito com que algumas perguntas chegam à consulta.

É possível, porém, continuar interpretando depois que a interpretação já deixou de aproximar a pessoa daquilo que está vivendo. Sempre haverá outra relação simbólica possível, outra analogia, mais uma camada de sentido. A coerência interna de uma leitura não garante, sozinha, que continuemos falando daquela situação.

Com os anos, aprendi a desconfiar também do excesso de interpretação.

Existe um momento em que abrir mais já não significa compreender melhor.

Foi aí que o Lenormand começou a modificar meu trabalho.

O lugar que o Lenormand encontrou

Quando aprofundei o estudo do Lenormand em meados dos anos 1990, o que primeiro me interessou não foi a ideia, bastante difundida, de que o Baralho Cigano seria um sistema “mais objetivo” do que o Tarot.

Nunca me pareceu que um baralho pudesse garantir objetividade ao intérprete. Uma imagem simples pode receber uma interpretação extravagante tanto quanto uma imagem complexa. O problema permanece humano: somos nós que relacionamos, julgamos, atribuímos importância e decidimos até onde uma interpretação pode ir.

Casa, Caminhos, Carta, Jardim, Navio, Cão. Suas figuras permanecem muito próximas de objetos, lugares, deslocamentos, relações e acontecimentos reconhecíveis da experiência comum. Isso não transforma cada carta numa palavra com tradução fixa, porque a leitura continua dependendo das combinações e da questão proposta. Ainda assim, na minha prática, essa iconografia começou a funcionar como uma resistência à expansão simbólica. Ela se tornou especialmente útil quando continuar ampliando a análise já não acrescentava compreensão.

Uma leitura de Tarot podia ter sugerido relações relevantes entre o que vinha acontecendo, a posição das pessoas envolvidas e determinados desdobramentos possíveis. O problema já não era buscar outra dimensão da questão. Faltava examinar onde essas relações tocavam a circunstância: qual relação parecia adquirir forma, o que poderia estar mantendo determinado movimento e onde uma possibilidade encontrava ou não condições para existir.

Nessas ocasiões, passar ao Lenormand produzia uma mudança que aos poucos comecei a reconhecer. A mudança de baralho alterava também os limites da interpretação que eu estava construindo.

Com o tempo, passei a prestar atenção não apenas às possibilidades que uma imagem abre, mas também aos limites que uma linguagem impõe à interpretação. No Lenormand encontrei muitas vezes essa contenção.

Com o Lenormand, eu procurava relacionar essas correspondências a circunstâncias mais reconhecíveis da questão. Não porque o sistema revelasse automaticamente “o concreto”, mas porque sua economia de imagens reduzia algumas das mediações que eu utilizava na interpretação.

Às vezes recorro ao Tarot para abrir uma questão que chegou estreita demais. O consulente vê uma única pessoa, um único acontecimento, um único resultado possível; a leitura pode trazer de volta à análise a história da situação, outras relações e a proporção entre seus elementos.

Em outras situações, as relações relevantes já apareceram e continuar ampliando a interpretação pouco acrescenta. Nesses casos, o Lenormand pode ajudar a aproximá-la novamente das circunstâncias da pergunta.

Isso não estabelece uma ordem fixa. Há consultas em que começo pelo Lenormand porque a questão já se apresenta num plano em que essa proximidade é útil. Há outras em que os dois sistemas entram em momentos diferentes. O que procuro evitar é a acumulação de cartas como se quantidade de símbolos fosse equivalente a quantidade de compreensão.

Também não utilizo o Lenormand para confirmar uma interpretação do Tarot. Se a segunda leitura serve apenas para ratificar a primeira, a mudança de linguagem perde sua função metodológica e se transforma apenas em acumulação de cartas.

Mudar de linguagem só faz sentido quando alguma coisa muda no trabalho da interpretação.

A leitura do Baralho Cigano possui sua própria gramática, suas combinações e procedimentos.

A diferença entre Tarot e Baralho Cigano também pode ser estudada historicamente e do ponto de vista dos dois sistemas. Dentro do Tarot Analítico, porém, o que me interessa especialmente é essa possibilidade de utilizar linguagens simbólicas diferentes sem perder de vista que a realidade examinada continua sendo uma só.

Onde a interpretação encontra seu limite

Nem sempre os elementos disponíveis formam um quadro suficiente para uma conclusão segura. Podemos conhecer muitos fatos sem conseguir relacioná-los adequadamente, ou organizar a situação de forma tão fechada que novos acontecimentos deixam de alterar nossa interpretação. Nenhum dos dois sistemas elimina essa limitação.

Há questões para as quais uma consulta não oferece informação suficiente. Há desdobramentos que dependem de decisões que outras pessoas ainda não tomaram e acontecimentos condicionados por circunstâncias que ainda não existem. Uma leitura pode produzir uma hipótese consistente e a realidade posterior mostrar que ela estava errada.

Isso também alterou a maneira como passei a compreender perguntas sobre o futuro. Antes de saber para onde alguma coisa está caminhando, pode ser necessário perceber onde ela efetivamente está. O presente carrega consequências, compromissos, ausências, possibilidades que dependem de condições diferentes para se concretizar e escolhas que já começaram a limitar outras escolhas.

Quem consegue reconhecer melhor essa posição talvez não obtenha a certeza que procurava ao formular a pergunta. Pode obter algo mais útil: uma medida mais justa daquilo que sabe, daquilo que ainda não sabe e do espaço de ação que realmente possui.

Em muitas consultas, usei o Tarot para ampliar uma questão presa à primeira explicação. Com o Lenormand aprendi também a reconhecer o momento em que continuar ampliando deixava de ser útil e era preciso voltar às circunstâncias da pergunta.

Não procuro nas cartas uma realidade paralela à vida. Elas só me interessam quando ajudam a compreender melhor a situação examinada.

A consulta termina, e as pessoas continuam dentro da situação que existia antes de as cartas serem abertas. A utilidade da consulta dependerá do que a compreensão alcançada permite reconhecer e fazer dentro dela.

Marcações:

Responsabilidade Editorial

Fernando

Fernando é tarólogo e cartomante, responsável pelo Mântica Rhom, e atua profissionalmente desde 1996. Ao longo dessa prática, desenvolveu uma abordagem própria de leitura contextual, que mais tarde passou a chamar de Tarot Analítico.

Consulta de Tarot Mântica Rhom - Fernando Tarólogo Cartomante - Av. Paulista, 2071, São Paulo - SP

Os critérios éticos e a fundamentação deste trabalho estão detalhados em nossa Metodologia.