Geraldo Spacassassi foi a principal referência brasileira na organização dos meus estudos do Petit Lenormand. Em Baralho Petit Lenormand: teoria & prática, ele relata que os materiais aos quais teve acesso no início de sua pesquisa concentravam a atenção na imagem, deixando em segundo plano a carta de jogar impressa na parte superior da lâmina. Sua investigação tomou outro rumo quando interrompeu temporariamente o estudo da sequência de 1 a 36 e agrupou as cartas por naipes.
Cada lâmina do Petit Lenormand reúne uma imagem e uma carta do baralho comum, identificada por seu valor e naipe. Há ainda o número que determina sua posição na sequência de 1 a 36. A leitura de Baralho Cigano que pratico considera esses elementos em conjunto, embora nem todos tenham a mesma função em qualquer método ou disposição.
O Anel, por exemplo, é a lâmina 25 e traz o Ás de Paus. O número identifica sua posição no baralho; a imagem do Anel apresenta o tema mais evidente da lâmina; o Ás e o naipe de Paus acrescentam outra camada de interpretação.
No artigo abaixo explano com maior profundidade as características desse método e como o incorporei em meu trabalho como tarólogo.

Leitura do Petit Lenormand
Imagem, valor e naipe
A classificação por naipes revela quatro séries compostas por nove cartas cada uma. Em Paus, Copas, Espadas e Ouros aparecem os valores Ás, 6, 7, 8, 9 e 10, seguidos por Valete, Rainha e Rei. A imagem apresenta uma situação, um objeto ou um tema reconhecível, enquanto o valor e o naipe permitem examinar a natureza da força representada e o modo como ela se manifesta.
Na leitura proposta por Spacassassi, o Ás marca a emergência de uma força, e os valores de 6 a 10 correspondem a diferentes momentos no desenvolvimento de um processo. As cartas da corte caracterizam modos de ação: o Rei se relaciona ao impulso e à iniciativa; a Rainha, à estabilidade e à concentração; o Valete, à flexibilidade e à mudança.
Essas atribuições não permanecem abstratas. Elas se modificam conforme o naipe. Paus reúne ação, entusiasmo, criatividade e capacidade de iniciativa. Copas se relaciona aos sentimentos, à receptividade, à intimidade e à memória. Espadas se concentra no pensamento, na comunicação, na análise e nos conflitos. Ouros dirige a atenção para o corpo, o trabalho, os recursos, a segurança e a concretização.
A imagem particulariza essas forças. Um Ás de Paus associado ao Anel produz uma composição diferente de um Rei de Paus associado às Nuvens, embora as duas cartas pertençam à mesma família. O estudo por naipes permite reconhecer aproximações estruturais sem transformar cartas diferentes em equivalentes.
A predominância dos naipes
A organização em famílias também pode ser observada quando várias lâminas estão abertas. A quantidade correspondente a cada naipe ajuda a identificar quais campos da experiência ganharam maior presença no conjunto.
No exemplo de Mandala apresentado por Spacassassi, aparecem seis cartas de Ouros, quatro de Paus, uma de Copas e uma de Espadas. A leitura começa por essa distribuição: a concentração de Ouros direciona a análise para a vida material, o trabalho e os recursos, enquanto Paus indica a participação relevante de projetos, iniciativas ou movimentos em curso. Copas e Espadas aparecem com menor intensidade.
Essa contagem não substitui a interpretação das lâminas nem determina antecipadamente o resultado do jogo. Uma predominância de Ouros assume sentidos distintos conforme estejam presentes o Sol, a Chave, o Livro, os Caminhos ou os Peixes. O naipe delimita uma área de concentração; as imagens e as relações estabelecidas entre elas mostram como aquela força está se organizando.
Na prática, essa distribuição funciona melhor como orientação inicial do que como regra conclusiva. A predominância de um naipe precisa ser confrontada com a pergunta, com as posições ocupadas pelas lâminas e com as combinações formadas no jogo. Uma concentração numérica pode ser significativa, mas não deve se sobrepor à coerência do conjunto.
Da lâmina individual à configuração do jogo
Spacassassi apresenta métodos com diferentes números de lâminas, desde disposições breves até estruturas mais amplas, como a Mandala. Essas extensões não representam apenas graus crescentes de complexidade. Cada método organiza a pergunta de uma maneira e determina quais relações poderão ser observadas.
Em uma disposição pequena, a atenção tende a permanecer nas relações imediatas entre as lâminas. Nos jogos maiores, torna-se possível comparar diferentes posições, acompanhar o desenvolvimento de um tema e observar a distribuição dos naipes no conjunto.
A quantidade de lâminas, entretanto, não torna uma leitura automaticamente melhor ou mais precisa. Para perguntas bem delimitadas, uma disposição breve pode oferecer informação suficiente. Jogos maiores são úteis quando a questão exige examinar diferentes fatores ou acompanhar relações que não poderiam ser compreendidas por uma única sequência.
Anel e Ás de Paus: a leitura da lâmina completa
A lâmina 25 permite observar com clareza a contribuição dessa abordagem. O Anel representa união, associação, compromisso e cooperação em torno de um objetivo. Também envolve as obrigações e os limites decorrentes de qualquer vínculo assumido.
O Ás de Paus acrescenta o surgimento de uma força criadora: entusiasmo, iniciativa e vontade de começar algo. Ao aparecer com o Anel, esse impulso procura uma forma compartilhada. Pode indicar um projeto que depende de parceria, uma associação profissional ou um compromisso afetivo que começa a se formar.
Há, porém, uma tensão interna entre seus componentes. O Ás impulsiona e inaugura; o Anel vincula e exige continuidade. A associação pode viabilizar aquilo que uma pessoa isolada não conseguiria realizar, mas também requer que o desejo individual seja conciliado com responsabilidades comuns.
A interpretação não surge, portanto, de uma palavra previamente atribuída ao Anel. Ela se forma pela relação entre a imagem, o valor, o naipe, a posição ocupada pela lâmina e as demais lâminas presentes no jogo.
O Lenormand em minha prática de consulta
Meu trabalho se desenvolve principalmente dentro da metodologia do Tarot Analítico, mas isso não significa que toda leitura deva ser realizada exclusivamente por um único oráculo. Em alguns atendimentos utilizo o Petit Lenormand de maneira complementar ao Tarot. Em outros, dependendo da natureza da questão, posso iniciar a leitura com o Lenormand ou com o baralho tradicional de cartomancia.
O Lenormand costuma ser particularmente útil quando a pergunta envolve circunstâncias pontuais, alterações de comportamento ou detalhes que precisam ser delimitados antes de uma análise mais ampla. Sua linguagem é mais direta do que a do Tarot em determinados contextos, e essa objetividade algumas vezes apresenta elementos que ainda não haviam sido relatados pelo consulente.
Em um atendimento relacionado a uma suspeita de traição, por exemplo, iniciei a consulta com uma disposição breve do Lenormand. A consulente havia mencionado apenas sua desconfiança, sem descrever as circunstâncias que a haviam provocado. A leitura indicou afastamentos repentinos, períodos prolongados de incomunicabilidade e uma dinâmica de ocultação ou omissão.
Esses elementos não constituíam prova de que uma traição tivesse ocorrido. Indicavam, entretanto, um padrão de conduta incompatível com a rotina habitual do relacionamento. Somente depois da leitura a consulente relatou que o marido vinha desaparecendo sem explicações e permanecendo incomunicável por longos períodos, comportamento que se repetira nas semanas anteriores.
A disposição inicial serviu, nesse caso, para delimitar o problema. Em seguida, utilizei o Tarot para examinar a estrutura mais ampla do vínculo, as tensões acumuladas, as dificuldades de comunicação e outros fatores que estavam comprometendo a convivência. A consulta deixou de se restringir à tentativa de confirmar uma suspeita e passou a considerar o funcionamento do relacionamento como um todo.
Com o tempo, segundo o retorno da própria consulente, alguns desses aspectos puderam ser reconhecidos e gradualmente modificados, o que contribuiu para que a convivência recuperasse maior equilíbrio. O caso mostra por que não considero o Lenormand e o Tarot instrumentos concorrentes. Cada um pode oferecer uma perspectiva distinta, e a escolha depende da pergunta e do tipo de informação que precisa ser investigado.
A influência de Spacassassi em minha leitura
A contribuição mais importante da obra de Spacassassi para o meu trabalho foi a compreensão da lâmina em sua composição integral. A imagem permanece como elemento central, mas o valor e o naipe ajudam a esclarecer por que símbolos aparentemente distantes podem compartilhar determinadas motivações e como uma mesma família se manifesta em circunstâncias diferentes.
O livro trabalha com referências provenientes da astrologia, da numerologia, do hermetismo e de outras vertentes esotéricas. Em minha prática, essas correspondências não são tomadas como princípios que precisem ser aplicados indistintamente a todas as leituras. Elas integram o sistema organizado pelo autor e são utilizadas quando contribuem efetivamente para a interpretação.
Depois de incorporada à experiência, uma estrutura teórica deixa de funcionar como simples reprodução de significados. Algumas de suas relações se confirmam com frequência; outras precisam ser relativizadas conforme a pergunta, a disposição utilizada e o contexto apresentado pelo consulente.
Foi nesse sentido que Spacassassi se tornou uma referência decisiva em meus estudos. Sua organização permitiu que o Petit Lenormand deixasse de aparecer como uma sucessão de 36 imagens independentes. Ao mesmo tempo, a prática mostrou que essas relações internas só adquirem valor interpretativo quando permanecem subordinadas à pergunta concreta e à coerência geral do jogo.
Referência utilizada
SPACASSASSI, Geraldo. Baralho Petit Lenormand: pesquisa sobre a origem, a estrutura e o simbolismo do autêntico Baralho Cigano. São Paulo: Mandala, [1996]. 174 p.