Pular para o conteúdo

Baralho Cigano: origem, história e relação com o Petit Lenormand

No Brasil, chamamos de Baralho Cigano uma família de baralhos e práticas cartomânticas geralmente estruturada a partir de 36 cartas e historicamente relacionada ao Petit Lenormand. É daí que vêm imagens bastante conhecidas como o Cavaleiro, o Trevo, o Navio, a Casa, a Árvore, o Coração, o Anel, a Chave, a Âncora e a Cruz.

Essa relação é bastante clara. A história dos dois nomes, entretanto, é um pouco mais complicada.

O Petit Lenormand pertence a uma linhagem europeia de cartas do século XIX cuja estrutura pode ser rastreada até um jogo alemão do final do século XVIII. Já Baralho Cigano é uma denominação que se consolidou posteriormente no Brasil, onde essa matriz recebeu diferentes interpretações e, em algumas correntes, também transformações iconográficas e religiosas.

Por isso, embora atualmente seja comum utilizar Petit Lenormand e Baralho Cigano quase como sinônimos, historicamente eles não são exatamente a mesma coisa.

E a história documentada das cartas também é bastante diferente daquela que durante décadas foi repetida em livros, revistas e ambientes esotéricos, atribuindo sua criação a Mlle. Lenormand e sua difusão aos povos ciganos.

Um sistema de 36 cartas

Uma das características mais facilmente reconhecíveis do Petit Lenormand tradicional é seu conjunto de 36 cartas numeradas, cada uma identificada por um emblema.

As imagens são, em grande parte, elementos relativamente simples: Casa, Árvore, Navio, Serpente, Cão, Torre, Jardim, Coração, Livro, Carta, Sol, Lua, Peixes e assim por diante.

Há ainda uma característica que às vezes passa despercebida nas edições modernas: cada uma dessas figuras possui uma correspondência com uma carta do baralho comum. Essa combinação entre 36 posições, numeração, sequência de imagens e correspondências com cartas comuns é muito importante para compreendermos de onde veio o sistema.

Ela nos leva a Nuremberg, no final do século XVIII.

Para quem quiser aprofundar posteriormente como essas imagens, valores e naipes podem ser utilizados na interpretação, trato disso separadamente em como é estruturada a leitura do Baralho Cigano. Aqui interessa primeiro entender de onde vieram as cartas.

Antes do Petit Lenormand: o Spiel der Hoffnung

No final da década de 1790, o alemão Johann Kaspar Hechtel, de Nuremberg, desenvolveu um conjunto de 36 figuras conhecido como Das Spiel der Hoffnung, ou Jogo da Esperança.

Em 1798, Hechtel publicou uma coletânea de jogos chamada Beiträge zur geselligen Freude. Pouco depois, o Spiel der Hoffnung aparece como produto independente. O exemplar histórico associado ao British Museum é acompanhado por instruções que o identificam como uma “segunda edição melhorada”, de modo que é mais correto situar sua formação no final da década de 1790 do que transformar uma data específica na primeira edição absoluta sem documentação suficiente para isso.[1]

O mais interessante é observar o que essas 36 cartas faziam.

Elas podiam ser colocadas em seis fileiras de seis, formando uma espécie de tabuleiro sobre o qual os jogadores avançavam utilizando dois dados. Ao mesmo tempo, as cartas traziam referências aos baralhos comuns alemão e francês, permitindo que fossem utilizadas também em outros jogos.

Mas havia ainda uma terceira possibilidade: as próprias instruções do Spiel der Hoffnung já ensinavam um procedimento oracular com as 36 figuras.[1]

Portanto, sua história não cabe muito bem em nenhuma das duas explicações simplificadas que às vezes encontramos. Não se tratava apenas de um baralho divinatório, mas também não era um jogo puramente recreativo que alguém, muito tempo depois, resolveu transformar em oráculo.

Jogo, narrativa e prognóstico já conviviam no próprio conjunto.

É dessa estrutura — as 36 posições numeradas, os emblemas e suas correspondências com cartas comuns — que deriva a família posteriormente conhecida como Petit Lenormand. A pesquisa museológica sobre cartas divinatórias já estabeleceu essa relação, posteriormente aprofundada nos estudos específicos sobre Hechtel e o Spiel der Hoffnung.[2]

Isso também significa que chamar Hechtel de “criador do Baralho Cigano” seria antecipar em muitas décadas um nome que pertence a outra etapa dessa história.

Então de onde veio o nome Lenormand?

Marie-Anne Adélaïde Le Normand (1772–1843) existiu de fato e foi uma cartomante francesa muito conhecida em sua época. Publicou livros, manteve atividade pública ligada à adivinhação e alcançou fama suficiente para que seu nome continuasse tendo valor muito depois de sua morte.

O problema começa quando essa importância histórica real é confundida com a autoria das cartas que posteriormente receberam seu nome.

Mlle. Lenormand morreu em 1843. Depois disso, seu nome passou a aparecer associado a diferentes produtos cartomânticos.

A Morgan Library & Museum conserva, por exemplo, um baralho dos anos 1840, provavelmente alemão, chamado Kartenspiel der berühmten Wahrsagerinn Mlle. Lenormand in Paris. São 36 cartas numeradas, com pequenas cartas comuns e figuras simbólicas, acompanhadas de instruções em alemão e francês. O conjunto pertence à mesma linhagem histórica posteriormente relacionada ao Spiel der Hoffnung de Hechtel.[2][3]

Temos, portanto, a estrutura das 36 cartas antes dos baralhos chamados Lenormand e encontramos esses baralhos sendo comercializados com o nome da cartomante depois de sua morte.

A historiografia recente tampouco encontrou evidência de que Marie-Anne Le Normand tenha projetado ou utilizado os baralhos posteriormente comercializados em seu nome.[4]

Isso não diminui sua importância como personagem da história da cartomancia. Apenas separa duas coisas que durante muito tempo foram confundidas: a cartomante histórica Mlle. Lenormand e a família de baralhos que posteriormente herdou seu nome.

Também convém não confundir o Petit Lenormand com o chamado Grand Lenormand. Um Grand jeu de société atribuído às “práticas secretas” de Mlle. Lenormand aparece em 1845, já depois de sua morte, com uma estrutura astro-mito-hermética própria. O Petit Lenormand de 36 cartas pertence a outra linhagem.

Um baralho de 36 cartas atribuído a Mlle. Lenormand já era vendido no Rio de Janeiro em 1856

Aqui a história brasileira fica especialmente interessante.

Em 18 de junho de 1856, a casa E. & H. Laemmert, no Rio de Janeiro, anunciou no Correio Mercantil um produto chamado:

A Pythonissa de Paris — Cartas da célebre cartomante Mlle Lenormand.

O anúncio descrevia 36 cartas coloridas, acompanhadas de uma explicação em português e acondicionadas em estojo.[5]

São características bastante compatíveis com os baralhos da família Petit Lenormand que já circulavam na Europa naquela época. A proximidade cronológica também chama atenção: temos exemplares europeus de 36 cartas dos anos 1840 e esse anúncio brasileiro apenas alguns anos depois.

Existe, porém, uma peça que ainda falta. Até o momento não foi localizado um exemplar físico dessa edição brasileira de 1856 que permita comparar uma a uma suas 36 imagens, sua numeração e suas correspondências.

Por isso, considero muito provável que A Pythonissa de Paris pertença à família do Petit Lenormand, mas a documentação disponível ainda não permite transformar essa conclusão em certeza absoluta.

O que podemos afirmar é que em 1856 já era comercializado no Brasil um baralho de 36 cartas em nome de Mlle. Lenormand, aparentemente pertencente à família Petit Lenormand.

E não parece ter sido uma aparição isolada.

A própria Laemmert continuou anunciando A Pythonissa de Paris em 1858 e 1859. Décadas depois, em 1885, aparece anunciado A Nova Pythonissa de Paris, também descrita como um baralho de 36 cartas coloridas com explicação em português. Em 1896, A Pythonissa de Paris volta a aparecer anunciada no mercado livreiro paulista.[5]

Isso desloca bastante para trás a história dessas cartas no Brasil. A presença da linhagem Lenormand aqui é documentalmente muito anterior às reelaborações esotéricas e religiosas do final do século XX.

Mas quando o Lenormand passou a ser chamado de Baralho Cigano?

Essa é justamente a parte da história que ainda não conseguimos reconstruir por inteiro.

Um anúncio da Laemmert de 1858 fornece uma pista particularmente interessante. Na mesma peça publicitária aparecem separadamente A Pythonissa de Paris, um baralho de 36 cartas associado a Mlle. Lenormand, e Revelações do Cigano, uma publicação de sortes em volume.[5]

Naquele anúncio, portanto, o baralho associado a Lenormand e uma publicação ligada ao imaginário “cigano” eram comercializados como produtos diferentes.

Isso não prova que ninguém já utilizasse alguma associação entre os dois. Um anúncio comercial não poderia demonstrar algo tão amplo.

Em algum momento posterior essa situação mudou.

Hoje, no Brasil, Baralho Cigano é uma denominação amplamente utilizada para sistemas derivados das 36 cartas do Petit Lenormand. O problema é que ainda não sabemos quando a expressão apareceu pela primeira vez aplicada especificamente a esse baralho, quem promoveu essa associação ou através de quais ambientes ela se consolidou.

Editoras, cartomantes, cultura popular, ambientes religiosos e o imaginário relacionado aos ciganos podem ter participado desse processo. Estabelecer o peso de cada um deles, porém, exige documentação que ainda não foi localizada.

Preencher esse intervalo com uma história simplesmente porque ela parece fazer sentido seria repetir o mesmo problema que criou tantas versões fantasiosas sobre a origem dessas cartas.

Neste caso, não saber ainda faz parte da história.

A antiga história sobre Mlle. Lenormand e os ciganos

Essa narrativa, é bom dizer, não nasceu com a internet.

Desde os anos 1980 eu já a encontrava em feiras esotéricas, artigos de revistas e mesmo em livros — e a literatura disponível naquela época era bem mais escassa. Na minha experiência, ela aparecia repetidamente nesses ambientes, quase sempre apresentada como história estabelecida.

Em linhas gerais, dizia-se que Mlle. Lenormand teria criado o baralho, os ciganos europeus teriam se identificado com aquelas imagens, incorporado as cartas às suas práticas e, por meio de sua circulação, dado origem ao que posteriormente conheceríamos como Baralho Cigano.

Nesses ambientes, durante muito tempo essa narrativa foi apresentada como história.

A documentação hoje disponível conta outra coisa.

A matriz das 36 cartas aparece na produção de Hechtel, em Nuremberg, antes do surgimento dos baralhos chamados Lenormand. O nome de Mlle. Lenormand é associado comercialmente a esses produtos depois de sua morte. E até agora não foi encontrada documentação que estabeleça povos ciganos como criadores do sistema ou como responsáveis por sua transmissão ao Brasil.

Isso é diferente de afirmar que pessoas ou comunidades ciganas jamais utilizaram essas cartas. São duas questões completamente distintas. O que não está documentado é uma origem étnica cigana do sistema ou uma cadeia histórica pela qual comunidades ciganas teriam recebido de Mlle. Lenormand e posteriormente difundido o baralho.

A antiga narrativa continua sendo interessante por outro motivo: ela própria faz parte da recepção brasileira dessas cartas. Ajuda a compreender como Mlle. Lenormand, o imaginário cigano e um sistema europeu de 36 cartas acabaram tão intimamente associados na cultura esotérica brasileira.

O folclore e as narrativas que se formaram em torno do Baralho Cigano não precisam ser apagados. Precisam apenas deixar de ocupar o lugar da história documentada.

Petit Lenormand e Baralho Cigano são a mesma coisa?

No uso brasileiro atual, muitas vezes sim: quando alguém fala em Baralho Cigano, normalmente está se referindo a uma estrutura que deriva do Petit Lenormand.

Historicamente, é melhor fazer uma distinção.

Petit Lenormand é o nome convencional de uma linhagem europeia de 36 cartas cuja estrutura deriva do Spiel der Hoffnung.

Baralho Cigano tornou-se, no Brasil, uma denominação posterior aplicada a essa família de cartas, que também recebeu reelaborações locais.

Em algumas edições brasileiras, por exemplo, desapareceram as pequenas cartas de baralho comum que originalmente acompanhavam os emblemas. Também são documentadas algumas correntes que incorporaram interpretações relacionadas a entidades ciganas, Umbanda ou associações com orixás. O trabalho antropológico de Pedro Cruz Marchese documenta etnograficamente algumas correntes e reelaborações brasileiras.[6]

Essas transformações pertencem à história posterior do Baralho Cigano no Brasil. Elas não explicam a origem europeia das 36 cartas e tampouco significam que todo praticante brasileiro siga uma interpretação religiosa desse tipo.

É justamente por isso que os dois nomes se sobrepõem, mas não são sinônimos históricos perfeitos.

O Petit Lenormand fornece a matriz histórica. No Brasil, a denominação Baralho Cigano passou a abranger tanto usos próximos dessa matriz quanto reelaborações desenvolvidas em contextos locais.

A história mais ampla dessas transformações pertence ao estudo da Cartomancia, do Tarot e do Baralho Cigano no Brasil.

O que podemos dizer hoje sobre a origem do Baralho Cigano

Depois de separar as diferentes etapas, a história se torna mais clara.

As 36 cartas têm como matriz histórica conhecida o Spiel der Hoffnung, desenvolvido por Johann Kaspar Hechtel em Nuremberg no final do século XVIII. O conjunto reunia jogo de percurso, utilização como cartas comuns e também um procedimento oracular.

Depois da morte de Marie-Anne Le Normand, seu nome passou a ser usado em diferentes produtos cartomânticos e, nos anos 1840, já encontramos baralhos de 36 cartas estruturalmente derivados do jogo de Hechtel comercializados em nome da famosa cartomante. No Brasil, um baralho de 36 cartas atribuído comercialmente a Mlle. Lenormand está documentado pelo menos desde 1856.

Em uma etapa posterior, ainda incompletamente documentada, essa linhagem passou a ser identificada aqui como Baralho Cigano e também recebeu desenvolvimentos próprios.

Portanto, quando utilizo hoje o nome Baralho Cigano, estou falando de uma tradição cartomântica brasileira historicamente relacionada ao Petit Lenormand, e não de um baralho cuja criação possa ser atribuída documentalmente a Mlle. Lenormand ou aos povos ciganos.

A partir daí começam outras questões. Como Tarot e Baralho Cigano são sistemas diferentes, a comparação entre Tarot e Baralho Cigano merece tratamento próprio. E, para quem procura especificamente entender o atendimento, há uma página separada sobre como funciona uma consulta com o Baralho Cigano.

Fontes e referências

[1] British Museum — Das Spiel der Hoffnung. Exemplar histórico do conjunto de 36 cartas e folheto de instruções associado. As instruções preservadas documentam os diferentes modos de utilização do jogo e trazem a identificação como “segunda edição melhorada”.

[2] HOFFMANN, Detlef; KROPPENSTEDT, Erika. Wahrsagekarten, ein Beitrag zur Geschichte des Okkultismus. Deutsches Spielkarten-Museum, 1972; GLÜCK, Alexander. Johann Kaspar Hechtel, das Spiel der Hoffnung und die Lenormandkarten: ein Beitrag zur Spielkultur am Beginn des neunzehnten Jahrhunderts und zur Geschichte der Wahrsagerei. Hollabrunn: Alexander Glück, 2015. Pesquisas fundamentais para a relação histórica entre Hechtel, o Spiel der Hoffnung e a família Lenormand.

[3] Morgan Library & Museum — Kartenspiel der berühmten Wahrsagerinn Mlle. Lenormand in Paris, acervo PML 88566. Baralho de 36 cartas catalogado pela instituição como provavelmente alemão e datado dos anos 1840.

[4] POOLEY, William G. “Paper tools for broken hearts: fortune-telling with cards in France, c. 1803–1937”. French History, vol. 37, n. 4, 2023; DECKER, Ronald; DEPAULIS, Thierry; DUMMETT, Michael. A Wicked Pack of Cards: The Origins of the Occult Tarot. 1996. Referências para a história documental de Mlle. Lenormand e para a ausência de evidência de sua autoria ou utilização dos baralhos posteriormente comercializados em seu nome.

[5] Fundação Biblioteca Nacional — Hemeroteca Digital Brasileira. Correio Mercantil, Rio de Janeiro, 18 de junho de 1856: anúncio da E. & H. Laemmert de A Pythonissa de Paris, descrita como jogo de 36 cartas coloridas com explicação em português. Correio da Tarde, Rio de Janeiro, 19 de junho de 1858: anúncio da Laemmert apresentando separadamente A Pythonissa de Paris e Revelações do Cigano. Correio Mercantil, Rio de Janeiro, 21 de junho de 1859: publicidade de A Pythonissa de Paris. O Paiz, Rio de Janeiro, 23 de junho de 1885: anúncio de A Nova Pythonissa de Paris, descrita como baralho de 36 cartas coloridas com explicação em português. O Commercio de São Paulo, São Paulo, 12 de junho de 1896: anúncio de A Pythonissa de Paris no mercado livreiro paulista.

[6] MARCHESE, Pedro Cruz. Baralho Cigano: a experiência mágico-religiosa umbandista através da cartomancia. Trabalho de Conclusão de Curso (Graduação em Ciências Sociais; requisito para obtenção do título de Bacharel em Antropologia) — Universidade Federal de Minas Gerais, 2021. Pesquisa de campo e observação participante sobre algumas reelaborações brasileiras do Baralho Cigano em contextos umbandistas.

Marcações:

Responsabilidade Editorial

Fernando

Fernando é tarólogo e cartomante, responsável pelo Mântica Rhom, e atua profissionalmente desde 1996. Ao longo dessa prática, desenvolveu uma abordagem própria de leitura contextual, que mais tarde passou a chamar de Tarot Analítico.

Consulta de Tarot Mântica Rhom - Fernando Tarólogo Cartomante - Av. Paulista, 2071, São Paulo - SP

Os critérios éticos e a fundamentação deste trabalho estão detalhados em nossa Metodologia.