Dos Anúncios do Império à Era Digital

Nota editorial: Quando eu comecei a estudar Tarot nos anos 80, ainda era comum encontrar uma visão muito ligada ao ocultismo editorial, ao imaginário New Age e às antigas feiras esotéricas que marcaram aquela época. Com o tempo, percebi que muitas pessoas desconheciam não apenas a origem desses sistemas no Brasil, mas também a longa trajetória social da cartomancia antes da internet, dos cursos online e das redes sociais. Este texto reúne parte dessa história.
A Formação da Cartomancia Urbana no Brasil
A história dos oráculos de cartas no Brasil deve ser compreendida historicamente a partir da cartomancia urbana oitocentista, um fenômeno que antecede a consolidação do Tarot e do Baralho Cigano como sistemas editoriais e esotéricos estruturados no país. A documentação mais antiga e robusta demonstra que o Tarot e o Baralho Cigano não desembarcaram diretamente como sistemas nomeados, mas acoplaram-se posteriormente a um campo social brasileiro já existente de cartomancia, vidência, sonambulismo, quiromancia e cura mágica. Assim, a consulta oracular com cartas nasce no Brasil urbano como uma prática popular e remunerada voltada a resolver incertezas cotidianas, preparando o terreno para as linguagens simbólicas e terapêuticas que surgiriam nas eras subsequentes.
A Cartomancia na Corte Imperial (Décadas de 1860 a 1880)
No Brasil Imperial, especialmente na Corte do Rio de Janeiro, a cartomancia era uma prática pública, corriqueira e comercialmente visível. Sob o Código Criminal de 1830, pautado pelo princípio da legalidade penal — que impedia a punição sem lei anterior que qualificasse o fato —, a cartomancia, a feitiçaria e a magia não eram tipificadas como crimes autônomos. Adicionalmente, embora a Constituição de 1824 estabelecesse o catolicismo como religião oficial do Império, a Igreja Católica não aparece na documentação histórica como um agente direto de perseguição às cartomantes.
Essa margem de tolerância social e jurídica permitiu a consolidação de um mercado de trabalho informal e remunerado para mulheres cartomantes na década de 1860, as quais anunciavam abertamente seus endereços, horários e preços em periódicos de grande circulação, como o Jornal do Commercio e o Diário do Rio de Janeiro. A pesquisa de Kathleen de Oliveira Maia identificou figuras centrais desse período:
- Mme. Rachel: Cartomante com endereço fixo na Rua de São José, associava cartomancia e sonambulismo, cobrava o valor de 10$000 por consulta e publicou 92 anúncios na década de 1860.
- A.V.: Profissional identificada apenas por iniciais, acumulou 122 publicações nos jornais da época, oferecendo serviços específicos para solucionar casos de roubos, moléstias, objetos perdidos e pessoas desaparecidas.
- Madame Diana: Registrou 36 anúncios na imprensa da Corte ao longo dos anos 1860.
- Madame Augusta: Contabilizou 31 anúncios no mesmo período.
- Madame Potier, Mme. Diane e Hilda: Outras figuras ativas no mercado da Corte; Mme. Diane, especificamente, apresentava-se como sibila e cartomante irlandesa, realizando atendimentos em português, inglês e francês.
Essas cartomantes atuavam como conselheiras e confidentes da população. O mercado expandiu-se nas décadas de 1870 e 1880, tornando a atividade tão reconhecível que, em 1884, Machado de Assis publicou o conto “A Cartomante” na Gazeta de Notícias, sedimentando a personagem no imaginário cultural e literário brasileiro.
A Ruptura Republicana e a Criminalização (A partir de 1889)
A Proclamação da República, em 15 de novembro de 1889, consistiu em um golpe de Estado liderado por militares que alterou radicalmente o estatuto jurídico das práticas adivinhatórias. Embora o Decreto 119-A, de janeiro de 1890, tenha extinguido o padroado e consagrado formalmente a laicidade do Estado e a liberdade de cultos, o Código Penal Republicano do mesmo ano criminalizou diretamente as práticas mágico-religiosas.
O artigo 157 do Código Penal de 1890 estipulou a punição para a prática do espiritismo, da magia, de sortilégios, do uso de talismãs e de cartomancias, classificando-os como ameaças à saúde pública, charlatanismo e exploração da credulidade. Na prática, estabeleceu-se uma hierarquia excludente: religiões das elites (como o catolicismo e o protestantismo) eram toleradas; o espiritismo kardecista lutava por legitimação; e a cartomancia, o curandeirismo e as religiões de matriz africana eram perseguidos sob o rótulo de “baixo espiritismo” — categoria analisada por Emerson Giumbelli.
Em 1904, João do Rio publicou As religiões no Rio, documentando esse universo marginalizado de videntes, grafólogas e feiticeiras a partir de um olhar rico, porém elitista e exotizante. Entre as personagens citadas na crônica urbana figuravam Martinha, Chica de Vavá e Zebinda, esta última uma mulher negra cartomante associada a candomblés e festas, evidenciando as conexões entre raça, gênero e repressão policial. A efetividade dessa repressão estendeu-se pelo século XX, como demonstra o caso de Mr. Otomano (José Borges Francisco Smith), um cartomante turco preso na Estação da Piedade em 7 de outubro de 1935 sob a acusação formal de praticar cartomancia.
A Consolidação do Tarot no Brasil no Século XX
Diferente da cartomancia popular de cartas comuns, o Tarot ingressou no Brasil por uma via estritamente letrada, esotérica e editorial no século XX. O marco inaugural ocorreu em 1920, com a publicação da edição brasileira de O Tarô Adivinhatório, de Papus, lançada e organizada por Antônio Olívio Rodrigues, fundador da Editora Pensamento (instituição pioneira criada em 1907).
Foi o primeiro livro que li sobre tarot, atualmente ainda é publicado, embora tenha sofrido certas reconfigurações de nomenclaturas nas cartas, ou seja, já não é o mesmo oráculo, pois o anacronismo histórico interferiu nessas alterações editoriais, contudo, vale a leitura a título de curiosidade.
A partir da década de 1970, o mercado nacional de Tarot expandiu-se de forma acentuada, inicialmente dependente de traduções e reedições de matrizes estrangeiras ocultistas e iconográficas. A cronologia dessa expansão literária até o ano 2000 destaca os seguintes títulos e autores:
- 1972: Tarô Clássico, de Stuart R. Kaplan (Editora Pensamento), introduzindo o estudo histórico e visual das lâminas.
- Anos 1970/1980: Circulação de manuais dedicados ao ocultismo e à Cabala hermética, tais como Os Arcanos Maiores do Tarô e a Cabala, de Stephan A. Hoeller, e os volumes de G. O. Mebes sobre Arcanos Maiores e Menores (todos pela Pensamento). No mesmo período, circulou O Tarô Cabalístico, de Robert Wang (com registros de edição em 1983 ou 1987).
- 1985: Publicação de O Tarô de Marselha, de Carlos Godo (Editora Pensamento), acompanhado de 78 lâminas coloridas, figurando como um dos primeiros e mais importantes títulos autorais brasileiros de grande circulação. No mesmo ano, circulou O Tarô dos Boêmios, de Papus (reeditado pela Ícone nos anos 1990).
- 1988: O Tarô Mitológico, de Juliet Sharman-Burke e Liz Greene (Editora Siciliano), obra decisiva para a virada psicológica, arquetípica e terapêutica do Tarot no Brasil.
- 1989: Meditações sobre os 22 Arcanos Maiores do Tarô, obra anônima atribuída a Valentin Tomberg (Editora Paulinas/Paulus), marcando uma abordagem mística e cristã-hermética.
- 1991: Lançamento de Setenta e Oito Graus de Sabedoria, de Rachel Pollack (Editora Nova Fronteira), e do Manual do Tarô, de Hajo Banzhaf (Pensamento-Cultrix). Paralelamente, circulavam títulos como Jung e o Tarô: uma jornada arquetípica, de Sallie Nichols (Cultrix), e O Tarô de Marselha: tradição e simbolismo, de Paul Marteau (Editora Objetiva).
- 1992–1993: Edição de A Sabedoria do Tarô, de Elisabeth Haich; O Tarô do Antigo Egito, de Doris Chase Doane e King Keyes (ambos pela Pensamento); e O Tarô: manual prático de ocultismo, de Mouni Sadhu (Siciliano).
- 1993/1994: Tarot dos Anjos, de Mônica Buonfiglio, que representou a entrada do Tarot na cultura de massa e na espiritualidade popular angelológica. Buonfiglio ganhou amplo espaço na televisão dos anos 1990, apresentando o programa Seu Destino no Tarô na Rede Mulher. A década também contou com o sucesso midiático de Walter Mercado e o lançamento de O Tarô e a Viagem do Herói, de Hajo Banzhaf, em 1997.
- 2000: Publicação de Tarô, Ocultismo & Modernidade, de Nei Naiff (Claudinei Santos) pela Editora Elevação, estabelecendo uma voz nacional forte voltada ao ensino pedagógico e sistemático do Tarot.
A febre do Tarot nos anos 1980
Simultaneamente ao crescimento editorial, o meio da década de 1980 foi marcado pela “febre do Tarot” no Rio de Janeiro, com a proliferação de cursos urbanos, especialmente na Zona Sul, analisados pela antropóloga Fátima Regina Gomes Tavares. O Tarot deixou de ser um nicho estritamente livresco para se transformar em um mercado de formação profissional, gerando tensões produtivas entre as correntes racionais/simbólicas (focadas em arquétipos e psicologia) e intuitivas/oraculares (focadas em previsões e destino).
Até hoje essas tensões existem, acredito até mesmo que de modo ainda mais acentuado. E atribuo meio que ao modismo, estilo jovem místico, que se consolidou no pós pandemia, a internet contribuiu em muitos pontos, é verdade, o acesso a informação se consolidou de maneira significativa, mas a superficialidade nos estudos, por mais contraditório que pareça, tornou-se proporcional à imensa quantidade de conhecimento disponível. Desse modo, observo que há muito mais estética e performance online que conteúdo de fato nas redes sociais.
Feiras esotéricas, revistas e primeiros grupos de estudo
Quando eu comecei a me interessar pelo tarot nos anos 1980, além da literatura escassa e difícil de encontrar (afinal, não havia livrarias online), os poucos livros e revistas especializadas (em especial a emblemática Revista Planeta que trazia de tudo um pouco relacionado religiões comparadas, UFOs, oráculos, mitologia, filosofia, etc) disponíveis eram estudados minuciosamente, até o esgotamento de qualquer possibilidade de interpretação. Além disso, havia a troca de informações entre os tarólogos, havia uma convivência real, não virtual, fossem nas feiras místicas, eventos, assim como nos sistemas de atendimento por telefone, pioneiros em atendimento à distância.
A chegada da internet e dos fóruns online
Foi apenas nas décadas de 2000 e 2010 que se consolidou em definitivo a era digital e profissional do Tarot. Uma figura central desse processo foi Constantino K. Riemma capitaneou a articulação do conhecimento na internet com o portal Clube do Tarô. Além dos portais e sites relacionados ao tarot, haviam também inúmeras discussões em fóruns do Yahoo Respostas e no Orkut, ou seja, o tarot online cresceu com a popularização da internet e das redes sociais
A pesquisa de Listhiane Pereira Ribeiro demonstrou que o Tarot online reformulou as interações oraculares, transformando os tarólogos em influenciadores digitais que gerenciam consultas por videochamada, chat e WhatsApp. Essa busca contemporânea por legitimação profissional refletiu-se na organização do 4º Fórum Nacional de Tarot e Simbologia em 2015 e na redação do Código de Ética do Tarot (2015), que preconiza a confidencialidade, a transparência de preços e a recusa a manipulações fatalistas, definindo as cartas como indicadoras, e não determinadoras, do destino.
O Baralho Cigano e sua Ressignificação no Brasil
O estudo do Baralho Cigano no Brasil exige a separação rigorosa de três dimensões distintas para evitar distorções ou preconceitos:
- Os povos Romani reais: Grupos étnicos históricos, heterogêneos e diversos (como os Calon, Rom e Sinti), presentes no Brasil desde o período colonial e alvos frequentes de perseguição estatal e estigmatização.
- A figura “espiritual” do cigano: Elemento do imaginário brasileiro associado a conceitos de liberdade, nomadismo, magia e vidência.
- O Baralho Cigano como prática oracular: Sistema divinatório contemporâneo específico e estruturado em solo nacional.
O Baralho Cigano não pode ser lido como uma expressão etnográfica direta ou homogênea das tradições ciganas reais. Sua matriz visual e estrutural baseia-se no sistema europeu Petit Lenormand, um baralho de 36 cartas derivado do jogo alemão do século XVIII Das Spiel der Hoffnung (O Jogo da Esperança), de Johann Kaspar Hechtel, posteriormente vinculado à figura de Mlle. Lenormand.
No Brasil, o Lenormand foi totalmente ressignificado e “brasilianizado” ao entrar em contato com a cartomancia popular e o universo religioso mediúnico. A Umbanda, em alguma medida, foi o catalisador para essa ressignificação do Baralho Cigano no Brasil, por meio da criação de linhas ou falanges de entidades ciganas em seu panteão ritual.
Como apontam as pesquisas de Lívia Macedo e José Francisco Miguel Henriques Bairrão, essas entidades utilizam o baralho nos terreiros como um instrumento de aconselhamento focado em finanças, amor e caminhos abertos.
Da Cartomancia Imperial à Era Digital
A trajetória dos oráculos de cartas no Brasil revela um campo social dinâmico e interconectado. A cartomancia imperial do século XIX estabeleceu a infraestrutura e o solo social da consulta urbana remunerada. No século XX, o Tarot estruturou esse campo sob vieses editoriais, ocultistas e esotéricos (passando do foco da previsão para o foco do autoconhecimento), enquanto o Baralho Cigano desenvolveu-se de forma híbrida no ponto de encontro entre o Petit Lenormand europeu, o benzimento popular e a ritualística umbandista.
Atualmente, na era da digitalização e das redes sociais, Tarot e Baralho Cigano convivem no mesmo ecossistema econômico de consultas rápidas e influenciadores digitais, demonstrando como práticas que outrora sofreram perseguição e criminalização sistemática sob o higienismo médico-policial da Primeira República buscaram novas formas de profissionalização, legitimidade acadêmica e autorregulação ética no Brasil contemporâneo.
Referências:
- MACEDO, Lívia; BAIRRÃO, José Francisco Miguel Henriques. O Oriente Cigano na Umbanda. Memorandum: Memória e História em Psicologia, Belo Horizonte, v. 38, p. 1-29, 2021.
- RIO, João do. As religiões no Rio. Rio de Janeiro: H. Garnier, 1906.
- TAVARES, Fátima Regina Gomes. Tornando-se tarólogo: percepção “racional” versus percepção “intuitiva” entre os iniciantes no tarot no Rio de Janeiro. Numen, Juiz de Fora, v. 2, n. 1, p. 97-123, 1999.
- RIBEIRO, Listhiane Pereira; SOUZA, Candice Vidal e. O tarô online e as transformações de uma prática oracular. Revista Mundaú, Maceió, v. 1, n. 15, p. 311-332, 2024.
- MAIA, Kathleen de Oliveira. A sacerdotisa, o mundo e a roda da fortuna: uma análise sobre mulheres e cartomancia no Rio de Janeiro (1860-1890). 2023. Dissertação (Mestrado em História) — Universidade Federal de Juiz de Fora, Juiz de Fora, 2023.
- GIUMBELLI, Emerson. O “baixo espiritismo” e a história dos cultos mediúnicos. Horizontes Antropológicos, Porto Alegre, ano 9, n. 19, p. 247-281, jul. 2003.
- OLIVEIRA, Ana Cecília Freitas de. O caso de Mr. Otomano: um cartomante turco na Estação da Piedade. 2024. Trabalho de Conclusão de Curso (Bacharelado em Ciências Sociais) — Universidade Federal Fluminense, Niterói, 2024.
- ASSIS, Machado de. A cartomante. Gazeta de Notícias, Rio de Janeiro, ano 10, n. 333, p. 1-2, 28 nov. 1884.
- BRASIL. Constituição Política do Império do Brazil, de 25 de março de 1824. Rio de Janeiro, 1824.
- BRASIL. Lei de 16 de dezembro de 1830. Manda executar o Código Criminal. Rio de Janeiro, 1830.
- BRASIL. Decreto nº 119-A, de 7 de janeiro de 1890. Proíbe a intervenção da autoridade federal e dos Estados federados em matéria religiosa, consagra a plena liberdade de cultos, extingue o padroado e estabelece outras providências. Rio de Janeiro, 1890.
- BRASIL. Decreto nº 847, de 11 de outubro de 1890. Promulga o Código Penal. Rio de Janeiro, 1890.