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Tarot – Como surgiu?

Tarot e sua origem histórica

Visconti-Sforza Tarot
Visconti-Sforza Tarot

Os primeiros testemunhos que permitem acompanhar o surgimento do tarot aparecem na Itália do século XV. Eles não revelam um único inventor nem resolvem qual cidade criou o jogo, mas permitem afirmar com segurança que o tarot nasceu como um jogo de cartas ligado às cortes italianas, muito antes de receber as interpretações divinatórias e ocultistas hoje conhecidas.

As hipóteses mais amplas sobre sua origem foram examinadas em O Tarot – Algumas possibilidades e divagações. Neste artigo, o foco está nas evidências documentais, nos primeiros baralhos preservados e no ambiente social em que eles foram produzidos.

Um antecedente importante surgiu na corte de Milão antes de 1425. Marziano da Tortona descreveu um jogo concebido para Filippo Maria Visconti e ilustrado por Michelino da Besozzo. O baralho reunia quatro naipes de aves e dezesseis divindades greco-romanas, organizadas em uma hierarquia superior à das demais cartas.

Esse jogo ainda não possuía os naipes nem as figuras que se tornariam característicos do tarot. Sua importância histórica está em mostrar que, na corte milanesa, já se experimentava a ideia de acrescentar ao baralho uma série permanente de cartas superiores — o princípio que definiria os triunfos.

A primeira referência documental conhecida a naibi a trionfi aparece em 1440. Em seu diário, Giusto Giusti registrou um baralho feito expressamente em Florença para Sigismondo Pandolfo Malatesta, senhor de Rimini. O conjunto trazia as armas do destinatário e custou quatro ducados e meio. Dois anos depois, registros contábeis da corte dos Este documentaram a produção de carte da trionfi em Ferrara.

Esses documentos situam o jogo em três importantes ambientes do século XV: Milão, Florença e Ferrara. Não bastam para atribuir sua invenção a uma dessas cidades, mas mostram que os triunfos já circulavam entre oficinas e cortes italianas na primeira metade daquele século.

Na época, os baralhos eram chamados de trionfi ou carte da trionfi. As palavras tarocco e tarocchi aparecem nas fontes somente no início do século XVI. Também são posteriores as expressões “Arcanos Maiores” e “Arcanos Menores”, criadas quando as cartas começaram a ser interpretadas segundo sistemas ocultistas.

Na forma que se consolidou, o tarot passou a reunir 56 cartas divididas em quatro naipes, 21 triunfos e o Louco. Os triunfos ocupavam uma posição superior durante o jogo e podiam vencer as cartas comuns, de acordo com as regras de cada tradição regional.

Um jogo criado para a nobreza italiana

Os primeiros baralhos de tarot que podem ser identificados por documentos ou exemplares preservados foram criados para a nobreza. Essa conclusão não depende apenas de seu acabamento luxuoso: as próprias fontes nomeiam os destinatários e registram encomendas feitas para Filippo Maria Visconti, Sigismondo Pandolfo Malatesta e a corte dos Este em Ferrara.

Eram objetos caros, produzidos por artistas e oficinas especializadas. Algumas cartas foram pintadas à mão com têmpera, receberam fundos de ouro ou prata e foram personalizadas com brasões, divisas e outros emblemas familiares. O registro de Giusto Giusti, ao mencionar o preço e as armas de Malatesta, mostra de maneira concreta a união entre jogo, trabalho artístico e encomenda aristocrática.

Sua finalidade documentada era lúdica: tratava-se de um jogo de vazas ao qual havia sido acrescentada uma sequência de cartas superiores. No ambiente de corte, essa função coexistia com o valor social do objeto. Um baralho personalizado e revestido de materiais preciosos também exibia riqueza, gosto e posição.

O mecenato não era uma atividade desinteressada. Pinturas, manuscritos, medalhas, edifícios e baralhos podiam tornar visíveis a autoridade e a continuidade de uma família. No tarot, essa função aparecia nas próprias cartas: cada brasão ou divisa associava o jogo ao nome de quem o havia encomendado.

O mesmo objeto cumpria, assim, funções que não se contradiziam: servia ao jogo e representava a família que o possuía. Seu conteúdo moral e alegórico pertencia à cultura visual das cortes e ampliava a elaboração artística do baralho.

Os baralhos Visconti e Visconti-Sforza

Os exemplares mais conhecidos do século XV estão ligados às famílias Visconti e Sforza, que governaram Milão em momentos sucessivos. Eles são fundamentais para a história do tarot porque conservam parte de sua estrutura, de sua linguagem visual e das marcas dinásticas de seus proprietários.

“Visconti” é uma denominação ampla, aplicada a diferentes conjuntos incompletos produzidos em momentos distintos. “Visconti-Sforza” costuma designar especificamente o conjunto Colleoni-Baglioni. Entre os principais grupos preservados estão:

  • o Visconti di Modrone, também conhecido como Cary-Yale;
  • o Brera-Brambilla;
  • o Colleoni-Baglioni, chamado com maior frequência de Visconti-Sforza.

Parte dessas cartas é tradicionalmente atribuída a Bonifacio Bembo e à sua oficina, embora a datação exata dos conjuntos e a participação de diferentes artistas ainda sejam discutidas. O que pode ser observado diretamente são os fundos dourados, as roupas de corte, os brasões e as divisas relacionados à sociedade milanesa do período.

Essa produção atravessou uma mudança decisiva no poder de Milão. Filippo Maria Visconti morreu em 1447 sem deixar um herdeiro legítimo do sexo masculino. Sua filha Bianca Maria havia se casado com o condottiero Francesco Sforza em 1441. Depois das disputas que se seguiram à morte do duque, Francesco tomou Milão e foi reconhecido como duque em 1450.

A união dinástica ajuda a compreender a convivência de emblemas Visconti e Sforza no conjunto Colleoni-Baglioni. Nas cartas, a passagem de uma família à outra aparece como marca material da aliança que sustentou a nova dinastia.

Essas cartas eram, portanto, mais do que imagens soltas hoje reunidas em museus. Eram objetos feitos para circular nas mãos de pessoas que reconheciam seus símbolos, suas hierarquias e as relações de poder representadas por eles.

O que as imagens dos primeiros baralhos revelam

Os artistas dos primeiros baralhos de tarot trabalharam com uma linguagem visual familiar à sociedade italiana do século XV. Virtudes, autoridades religiosas, imperadores, a Roda da Fortuna, a Morte, o Julgamento e os astros já apareciam em igrejas, manuscritos, pinturas, procissões e outras manifestações da cultura medieval e renascentista.

Ao serem reunidas em uma sequência de triunfos, essas figuras passaram a compor uma hierarquia própria do jogo. A ordem não foi idêntica em todas as cidades, e alguns dos primeiros conjuntos apresentam diferenças no número e na escolha das cartas. O Visconti di Modrone, por exemplo, possui figuras que não permaneceram na composição posteriormente consolidada.

As roupas, os gestos e os objetos representados aproximavam as alegorias do universo das cortes que encomendaram os baralhos. Mesmo quando a figura era religiosa, moral ou mitológica, sua apresentação podia seguir os modelos visuais e o vestuário do tempo dos artistas.

A iconografia reúne, portanto, elementos cristãos, sociais, políticos e clássicos. Os documentos do século XV relacionados ao tarot descrevem jogos e encomendas; nenhum deles organiza a sequência dos triunfos como um sistema astrológico, alquímico ou cabalístico. Essas correspondências foram desenvolvidas em interpretações posteriores.

As cartas adquiriram outros usos e interpretações com o passar do tempo. Os primeiros registros conhecidos de cartomancia com o tarot são do século XVIII, e sua organização em sistemas ocultistas ocorreu depois. Essa etapa posterior é tratada com mais atenção em Tarot, ocultismo e modernidade.

Como surgiu o tarot, afinal?

O tarot tomou forma quando baralhos de quatro naipes, que já circulavam na Europa, receberam uma série especial de triunfos organizados segundo uma hierarquia. As primeiras evidências dessa transformação aparecem nas cortes e oficinas italianas da primeira metade do século XV. Os arquivos não identificam um inventor nem concedem a uma única cidade a autoria do jogo: Milão conserva um precursor importante e alguns dos primeiros baralhos; Florença fornece a primeira menção conhecida a naibi a trionfi; Ferrara apresenta registros precoces de sua produção.

Com base no que foi preservado, a resposta historicamente mais precisa é esta: o tarot surgiu na Itália do século XV como um jogo criado para ambientes aristocráticos, produzido por artistas e marcado pela cultura visual de seu tempo. Sua riqueza simbólica já estava presente nas primeiras cartas, enquanto o uso divinatório e as interpretações ocultistas pertencem aos capítulos posteriores de sua história.

Referências

Os documentos de Marziano da Tortona, Giusto Giusti e da corte dos Este constituem as fontes primárias mencionadas no texto. A relação abaixo reúne transcrições, traduções e estudos especializados desses registros, além de obras de referência e catálogos dos baralhos preservados.

PRATESI, Franco. “In Search of Tarot Sources – After Fifteen Years”. The Playing-Card, v. 41, n. 2, 2012, p. 95–114.

CALDWELL, Ross Gregory. “Marziano da Tortona’s Tractatus de deificatione sexdecim heroum: Part 1”. The Playing-Card, v. 33, n. 1, 2004, p. 50–55; “Part 2”, v. 33, n. 2, 2004, p. 111–126.

DECKER, Ronald; DEPAULIS, Thierry; DUMMETT, Michael. A Wicked Pack of Cards: The Origins of the Occult Tarot. Londres: Duckworth, 1996.

DEPAULIS, Thierry. “Entre farsa et barzelletta: jeux de cartes italiens autours de 1500”. The Playing-Card, v. 37, n. 2, 2008, p. 89–102.

DUMMETT, Michael. The Game of Tarot: From Ferrara to Salt Lake City. Londres: Duckworth, 1980.

DUMMETT, Michael. The Visconti-Sforza Tarot Cards. Nova York: George Braziller, 1986.

DUMMETT, Michael. “Tarot Cartomancy in Bologna”. The Playing-Card, v. 32, n. 2, 2003, p. 79–88.

DUMMETT, Michael; MCLEOD, John. A History of Games Played with the Tarot Pack. Lewiston: Edwin Mellen Press, 2004.

HUSBAND, Timothy B. The World in Play: Luxury Cards, 1430–1540. Nova York: The Metropolitan Museum of Art, 2015.

PRATESI, Franco. “I trionfi di Marziano”. The Playing-Card, v. 28, n. 3, 1999, p. 144–151.

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Responsabilidade Editorial

Fernando

Fernando é tarólogo e cartomante, responsável pelo Mântica Rhom, e atua profissionalmente desde 1996. Ao longo dessa prática, desenvolveu uma abordagem própria de leitura contextual, que mais tarde passou a chamar de Tarot Analítico.

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