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Tarot, ocultismo e modernidade: da origem como jogo à prática divinatória

Do jogo renascentista à sistematização esotérica do tarot

Entre sua origem como jogo de cartas e seus usos literários e divinatórios, afinal, o que é o tarot?

Historicamente, o tarot surgiu no norte da Itália do século XV como um jogo de cartas baseado em vazas e trunfos. Seu uso divinatório foi documentado apenas mais tarde e passou a ser sistematizado sobretudo na França do século XVIII (Dummett, 1980; Decker, Depaulis e Dummett, 1996).

O Papa, O Imperador, A Imperatriz, O Enforcado, O Carro, O Julgamento… Com sua iconografia centenária, composta por símbolos antigos, alegorias religiosas e referências históricas, as cartas de tarot podem parecer ultrapassadas.

Para pessoas céticas, práticas supostamente “ocultas” como a leitura de cartas têm pouca relevância em nosso mundo moderno. Na abordagem do Tarot Analítico adotada pela Mântica Rhom, o valor interpretativo do tarot não depende da atribuição de uma origem mística às cartas, mas da capacidade de suas imagens organizarem relações, conflitos e possibilidades presentes em uma situação concreta.

Os significados atribuídos às cartas do tarot mudaram ao longo do tempo, acompanhando transformações culturais e diferentes sistemas de utilização. Muitas lâminas preservam alegorias religiosas, sociais e históricas pertencentes ao contexto europeu em que foram produzidas.

Das cartas de jogar ao Tarot de Marselha

Até o século XVIII, as imagens das cartas do tarot empregavam um simbolismo tradicional e amplamente relacionado à cultura visual de seus contemporâneos. Em muitos tarôs modernos de orientação esotérica foram incorporadas correspondências astrológicas, cabalísticas e herméticas que exigem conhecimentos específicos para serem compreendidas.

Meu primeiro baralho de tarot foi o Tarot de Marselha, publicado pela editora Grimaud em 1969, e eu recentemente retornei a ele, depois de não usá-lo por um bom tempo, constatando mais uma vez como revisitar baralhos antigos acaba sendo sempre uma experiência enriquecedora.

Consolidado na França durante o século XVII, embora derivado de modelos italianos anteriores, o Tarot de Marselha é um dos tipos mais comuns de baralho de tarot já produzido. Os baralhos do Tarot de Marselha eram impressos por meio de blocos de madeira e depois coloridos à mão com estênceis simples (Depaulis, 1984; 2013).

Entretanto, as cartas de jogar que formaram a base do tarot chegaram à Europa no final do século XIV, e seus quatro naipes guardam estreita relação com os utilizados nas cartas de jogo mamelucas. Não há, porém, evidência de que essas cartas fossem utilizadas para adivinhação ou de que o uso divinatório do tarot seja anterior ao século XVIII (Mayer, 1939; Dummett, 1980; Husband, 2016).

O tarot como recurso literário

Durante o Renascimento, o monge beneditino Teófilo Folengo compôs poemas a partir de trunfos do tarot associados a diferentes personagens. Esses poemas aparecem em sua obra de 1527, Caos del Triperuno, escrita sob o pseudônimo Merlini Cocai.

Em um dos sonetos, ele menciona os 22 trunfos — posteriormente chamados de arcanos maiores — em uma disputa poética entre o Amor e a Morte. A Morte é representada como figura feminina, assim como no macabro e magnífico afresco de 1485 de Giacomo Borlone de Buschis em Clusone, onde todos os poderes deste mundo se curvam diante de La Morte.

O próprio Folengo relatou ter abandonado o mosteiro e percorrido a Itália com uma jovem da nobreza chamada Girolama, embora essa versão de sua biografia tenha sido posteriormente contestada por estudiosos. Ele retornou à vida monástica em 1530, passou alguns anos na Sicília e morreu em Campese, no Vêneto, em 1544. Essa trajetória, situada entre a vida religiosa, os ambientes cortesãos e a produção literária, ajuda a contextualizar seu interesse pelos jogos poéticos praticados pela nobreza italiana.

O uso que Teófilo Folengo fazia das cartas do tarot para compor poesia integrava uma prática literária difundida entre a nobreza italiana do século XVI, conhecida como tarocchi appropriati, ou “tarot apropriado”.

Em uma de suas formas, cartas determinadas eram distribuídas aos participantes, que utilizavam suas imagens e associações temáticas para compor versos sobre si mesmos ou sobre outras pessoas.

Outra modalidade, descrita por Girolamo Bargagli em Siena em 1572, funcionava como um jogo social de atribuição. Cada jogador recebia de um oponente um trunfo do tarot e precisava explicar, de maneira espirituosa, gentil ou poética, por que aquela carta lhe havia sido destinada (Folengo, 1527; Bargagli, 1572).

Paul Huson descreve ainda uma aplicação mais ampla desse princípio: os trunfos podiam ser escolhidos por um participante e apresentados a outro, que os interpretava por associação de ideias para criar versos sobre si mesmo, sobre terceiros ou para elogiar mulheres conhecidas nas cortes da época (Huson, 2004).

Muito além do Renascimento, diversos escritores também encontraram no tarot uma fonte de inspiração.

Os cadernos ocultistas de W.B. Yeats contêm notas relacionadas ao tarot, à astrologia e aos ensinamentos da Ordem Hermética da Golden Dawn. Como adepto da Ordem, Yeats estava familiarizado com o uso dos arcanos maiores em seus sistemas de simbolismo e magia cerimonial (Raine, 1972).

A escritora e estudiosa do tarot Rachel Pollack organizou com Caitlín Matthews a antologia Tarot Tales e posteriormente publicou a coletânea de narrativas The Tarot of Perfection.

No posfácio de seu romance O castelo dos destinos cruzados, publicado no Brasil pela Companhia das Letras em 1991, Italo Calvino explicou como utilizou o tarot como mecanismo combinatório para construir histórias (Calvino, 1991).

O tarot como jogo de vazas e trunfos

Mesmo os mais antigos tarôs conhecidos não foram projetados com misticismo em mente. Eles foram criados para um jogo de cartas baseado em rodadas, chamadas de vazas, nas quais os trunfos podiam superar as cartas comuns dos quatro naipes. Famílias ricas na Itália encomendavam dispendiosos jogos artesanais conhecidos como carte da trionfi — cartas de triunfo.

Essas cartas eram organizadas em quatro naipes — taças, espadas, moedas e bastões —, com cartas numeradas e figuras da corte, normalmente reis, rainhas, cavaleiros e pajens. A esse conjunto somava-se uma sequência de trunfos alegóricos, além de O Louco. No final do século XV já existiam baralhos completos que totalizavam 78 cartas (Dummett, 1980; Dummett e McLeod, 2004; Husband, 2016).

Em sua origem documentada, portanto, o tarot era utilizado como jogo, não como instrumento divinatório.

Em termos estritamente históricos, a mecânica do jogo baseava-se em vazas e trunfos. Ainda assim, a combinação variável das cartas e as decisões tomadas pelos jogadores faziam com que cada partida se desenrolasse de maneira diferente. A compreensão dessas imagens como componentes de uma narrativa pertence sobretudo às utilizações literárias e divinatórias posteriores.

As imagens refletiam aspectos importantes da sociedade em que os jogadores viviam. O simbolismo cristão proeminente nas cartas corresponde ao contexto cultural em que foram produzidas, ao lado de alegorias morais, hierarquias sociais e referências à cultura clássica.

A sistematização do tarot divinatório no século XVIII

O primeiro uso conhecido do tarot para adivinhação foi registrado em Bolonha, em meados do século XVIII. Na segunda metade daquele século, sobretudo na França, as aplicações divinatórias e ocultistas das cartas começaram a ser sistematizadas (Dummett, 2003; Decker, Depaulis e Dummett, 1996).

À medida que o uso divinatório se tornou mais popular, as ilustrações evoluíram para refletir a intenção de cada artista e passaram a incorporar significados cada vez mais esotéricos. Contudo, geralmente se mantinha a estrutura tradicional do tarot: quatro naipes de jogo, figuras da corte — reis, rainhas, cavaleiros e pajens — e os arcanos maiores.

O escritor Antoine Court de Gébelin afirmou que o tarot se baseava em um livro sagrado escrito por sacerdotes egípcios e trazido à Europa por grupos que ele identificava como ciganos vindos da África.

Na realidade, não existe evidência de que os povos Romani tenham trazido o tarot do Egito para a Europa. Esses povos têm origem no Sul da Ásia e já estavam presentes na Europa antes do aparecimento do tarot no século XV. Independentemente de suas imprecisões, a obra de nove volumes de Court de Gébelin foi altamente influente.

O cartomante, autor e comerciante de estampas Jean-Baptiste Alliette publicou seu primeiro livro sobre cartomancia em 1770, chamado Etteilla, ou manière de se récréer avec un jeu de cartes. Mais tarde, entre 1783 e 1785, publicou Manière de se récréer avec le jeu de cartes nommées tarots, uma das primeiras exposições sistemáticas da adivinhação com o tarot. Alliette criou o pseudônimo “Etteilla” simplesmente invertendo seu sobrenome.

Segundo os escritos de Etteilla, ele aprendeu inicialmente a prática divinatória com um baralho de 32 cartas destinado ao jogo de Piquet, ao qual acrescentava uma carta especial. Esse tipo de carta é conhecido como significador e representa o indivíduo cuja situação ou destino será consultado.

Embora o tarot seja um dos baralhos mais conhecidos para leitura da sorte, não é o único conjunto de cartas usado para adivinhação. Outros sistemas empregam baralhos comuns ou oráculos criados especificamente para essa finalidade.

Etteilla voltou-se posteriormente ao uso do tarot, que, segundo ele, continha segredos da sabedoria do antigo Egito. Sua premissa ecoava os escritos de Court de Gébelin, que afirmou reconhecer símbolos egípcios nas ilustrações das cartas.

Embora os hieróglifos ainda não tivessem sido decifrados — a Pedra de Rosetta foi descoberta em 1799 —, muitos intelectuais europeus do final do século XVIII atribuíam à religião e aos escritos do antigo Egito conhecimentos profundos sobre a existência humana. A vinculação das imagens do tarot ao misticismo egípcio conferiu às cartas uma aura de antiguidade e autoridade esotérica.

Com base na “conexão egípcia” de Court de Gébelin, Etteilla afirmou que as cartas de tarot se originaram do lendário Livro de Thoth, que supostamente pertencia ao deus egípcio da sabedoria. De acordo com Etteilla, o livro teria sido gravado pelos sacerdotes de Thoth em placas de ouro, fornecendo as imagens para o primeiro baralho de tarot. Com base nessas teorias, Etteilla publicou seu próprio baralho por volta de 1788–1789 — o primeiro baralho conhecido concebido explicitamente como instrumento de adivinhação e posteriormente referido como tarot egípcio (Decker, Depaulis e Dummett, 1996; Farley, 2009).

Entretanto, é importante não perder de vista a distinção entre as interpretações esotéricas sistematizadas por Etteilla e os usos literários ou oraculares anteriores. Há registros de jogos de sorte e associação com cartas nos séculos XVI e XVII, mas a documentação consistente da cartomancia, com significados fixos atribuídos às cartas, torna-se clara apenas no século XVIII.

Durante o século XIX, autores e ordens ocultistas ampliaram as interpretações iniciadas no século anterior e integraram o tarot a sistemas de correspondências cabalísticas, astrológicas e herméticas. Esse processo preparou o terreno para os baralhos ocultistas publicados no início do século XX (Decker e Dummett, 2002).

O tarot ocultista no século XX

Mesmo quem não está familiarizado com a leitura do tarot provavelmente já encontrou imagens do Tarot Rider-Waite-Smith, publicado em 1909 e amplamente reproduzido ao longo do século XX. Seu nome combina o do editor William Rider, o do ocultista Arthur Edward Waite e o da ilustradora Pamela Colman Smith.

O Tarot Rider-Waite-Smith contribuiu decisivamente para a consolidação do tarot ocultista moderno. O baralho foi concebido para usos divinatórios, e Waite reuniu em The Pictorial Key to the Tarot explicações sobre os significados esotéricos atribuídos às imagens (Waite, 1910; Decker e Dummett, 2002).

Uma das características mais influentes do Tarot Rider-Waite-Smith foi o tratamento artístico dado aos arcanos menores. Pamela Colman Smith incorporou os elementos correspondentes ao número e ao naipe em cenas figurativas, criando imagens que favorecem associações narrativas.

Embora o Tarot Sola Busca já apresentasse cartas numerais figurativas no século XV, no Tarot Rider-Waite-Smith esse recurso adquiriu uma forma acessível e exerceu enorme influência sobre os baralhos modernos (Gnaccolini, 2012). Esse forte elemento dá aos leitores algo com que interagir e imaginar, tornando relativamente intuitivo observar uma combinação de cartas e derivar dela uma história.

Nos Estados Unidos, o Tarot Rider-Waite-Smith ampliou consideravelmente sua circulação quando Stuart Kaplan passou a publicá-lo no início dos anos 1970. Kaplan ajudou a renovar o interesse pela leitura de cartas com seu livro de 1970, Tarot Cards for Fun and Fortune Telling, e posteriormente escreveu vários volumes sobre o tarot, tornando-se um dos principais editores modernos de jogos de cartas (Kaplan, 1970; Decker e Dummett, 2002).

Referências

BARGAGLI, Girolamo. Dialogo de’ giuochi che nelle vegghie sanesi si usano di fare. Siena: Luca Bonetti, 1572.

CALVINO, Italo. O castelo dos destinos cruzados. Tradução de Ivo Barroso. São Paulo: Companhia das Letras, 1991.

COURT DE GÉBELIN, Antoine. “Du jeu des tarots”. In: Le Monde primitif, v. VIII. Paris, 1781.

DECKER, Ronald; DEPAULIS, Thierry; DUMMETT, Michael. A Wicked Pack of Cards: The Origins of the Occult Tarot. Londres: Duckworth, 1996.

DECKER, Ronald; DUMMETT, Michael. A History of the Occult Tarot, 1870–1970. Londres: Duckworth, 2002.

DEPAULIS, Thierry. Tarot, jeu et magie. Paris: Bibliothèque nationale, 1984.

DEPAULIS, Thierry. “The Tarot de Marseille: Facts and Fallacies”. The Playing-Card, v. 42, n. 1–2, 2013.

DUMMETT, Michael. The Game of Tarot: From Ferrara to Salt Lake City. Londres: Duckworth, 1980.

DUMMETT, Michael. “Tarot Cartomancy in Bologna”. The Playing-Card, v. 32, n. 2, 2003, p. 79–88.

DUMMETT, Michael; McLEOD, John. A History of Games Played with the Tarot Pack: The Game of Triumphs. 2 v. Lewiston: Edwin Mellen Press, 2004.

ETTEILLA. Etteilla, ou manière de se récréer avec un jeu de cartes. Paris, 1770.

ETTEILLA. Manière de se récréer avec le jeu de cartes nommées tarots. Paris, 1783–1785.

FARLEY, Helen. A Cultural History of Tarot: From Entertainment to Esotericism. Londres: I. B. Tauris, 2009.

FOLENGO, Teofilo. Caos del Triperuno. Veneza, 1527.

GNACCOLINI, Laura Paola (org.). Il segreto dei segreti: I tarocchi Sola Busca e la cultura ermetico-alchemica tra Marche e Veneto alla fine del Quattrocento. Milão: Skira, 2012.

HUSBAND, Timothy B. The World in Play: Luxury Cards, 1430–1540. Nova York: Metropolitan Museum of Art, 2016.

HUSON, Paul. Mystical Origins of the Tarot. Rochester: Destiny Books, 2004.

KAPLAN, Stuart R. Tarot Cards for Fun and Fortune Telling. Nova York: U.S. Games Systems, 1970.

MAYER, Leo Ary. “Mamluk Playing Cards”. Bulletin de l’Institut Français d’Archéologie Orientale, v. 38, 1939, p. 113–127.

POLLACK, Rachel. The Tarot of Perfection: A Book of Tarot Tales. Londres: Magic Realist Press, 2008.

POLLACK, Rachel; MATTHEWS, Caitlín (orgs.). Tarot Tales. Londres: Legend, 1989.

RAINE, Kathleen. Yeats, the Tarot and the Golden Dawn. Dublin: Dolmen Press, 1972.

WAITE, Arthur Edward. The Pictorial Key to the Tarot. Londres: William Rider & Son, 1910.

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Responsabilidade Editorial

Fernando

Fernando é tarólogo e cartomante, responsável pelo Mântica Rhom, e atua profissionalmente desde 1996. Ao longo dessa prática, desenvolveu uma abordagem própria de leitura contextual, que mais tarde passou a chamar de Tarot Analítico.

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