História do Tarot na França

O Tarô de Marselha é uma família de baralhos reconhecível pela estrutura de 78 cartas e por imagens que diferentes oficinas repetiram ao longo dos séculos. O Mago diante da mesa, a Papisa com o livro, o Enforcado preso por um pé, a Casa de Deus aberta por chamas e o Mundo cercado pelas quatro figuras aparecem com mudanças de traço, cor, título e detalhe, mas conservam uma organização comum.
Essa forma se estabeleceu entre fabricantes da França e de regiões vizinhas a partir de modelos italianos anteriores. Foi impressa em cidades como Lyon, Paris, Dijon e Marselha antes de receber, já no século XIX, o nome pelo qual se tornaria conhecida. Sua história está justamente nesse percurso: uma mesma estrutura passou de oficina em oficina, ganhou variações e circulou muito além do lugar que acabou lhe dando o nome.
Do norte da Itália às primeiras oficinas francesas
O tarot surgiu no norte da Itália durante a primeira metade do século XV. Entre os primeiros conjuntos preservados estão baralhos luxuosos encomendados pelas cortes de Milão, Ferrara e outras cidades. Eram cartas pintadas à mão, muito diferentes da produção impressa que mais tarde permitiria fabricar baralhos em quantidade. Nesses primeiros baralhos do norte da Itália, a combinação de quatro naipes com uma sequência adicional de trunfos já estava formada.
A ordem dos trunfos que seria conservada pelo Tarô de Marselha está ligada à tradição de Milão. A sequência exata de oficinas envolvidas nessa transmissão se perdeu. As cartas preservadas, porém, mostram que a estrutura italiana atravessou os Alpes, entrou no território francês e começou a receber soluções gráficas próprias.
Um registro de Avignon menciona taraux em 1505. Cerca de trinta anos depois, François Rabelais incluiu a expressão au tarau numa longa lista de jogos do capítulo XXII de Gargantua, publicado por volta de 1534–1535. Esses dois registros mostram que o jogo já era conhecido em território francês, embora nada digam sobre a aparência exata das cartas.
A fabricação se torna visível em Lyon. Do baralho assinado por Catelin Geofroy em 1557 restaram 38 cartas. Suas imagens ainda diferem bastante da família que depois seria chamada de Marselha, mas o conjunto mostra que fabricantes franceses já imprimiam tarot no século XVI. Em 1637, uma regra publicada por Michel de Marolles, em Nevers, descreveu um baralho de 78 cartas e a forma de jogá-lo. O tarot já possuía, portanto, a estrutura que continuaria sendo usada pelas oficinas seguintes.
Os baralhos em que a família se torna reconhecível
É nas cartas do século XVII que o repertório visual do Tarô de Marselha aparece de forma reconhecível. O exemplar completo, datado e conhecido mais antigo dessa família é o baralho fabricado por Philippe Vachier em Marselha, em 1639. Suas 78 cartas já reúnem a estrutura e muitas das imagens que voltariam a aparecer em baralhos posteriores.
Por volta de 1659, Jean Noblet produziu em Paris outro conjunto dessa família, do qual 73 cartas estão preservadas. Entre 1701 e 1715, Jean Dodal fabricou em Lyon um baralho que repetia a mesma organização geral, com seu próprio desenho e suas próprias inscrições. Em Dijon, Pierre Madenié produziu, em 1709, o exemplar atualmente identificado como o mais antigo de uma segunda variante do padrão.
Vachier, Noblet, Dodal e Madenié trabalhavam em cidades diferentes e deixaram cartas distintas. Quando seus baralhos são comparados, é possível acompanhar a formação de uma família: os mesmos temas permanecem em posições semelhantes, enquanto rostos, gestos, nomes, cores e pequenos elementos são redesenhados. Cada fabricante recebia um repertório já reconhecível e o transmitia com as marcas de sua própria oficina.
Como reconhecer um Tarô de Marselha
Um Tarô de Marselha possui 78 cartas. Cinquenta e seis delas estão distribuídas entre quatro naipes de tradição italiana: paus, copas, espadas e moedas, chamadas de ouros em português. Cada naipe contém dez cartas numerais e quatro figuras: valete, cavaleiro, rainha e rei.
As 22 cartas restantes são o Louco, em geral sem número, e 21 trunfos numerados. No jogo, os trunfos têm precedência sobre as cartas dos quatro naipes. Mais tarde, esse conjunto passaria a ser chamado de Arcanos Maiores, enquanto as cartas dos naipes receberiam o nome de Arcanos Menores.
Os trunfos costumam trazer números romanos e títulos em francês. Cartas como Le Bateleur, La Papesse, L’Amoureux, Le Pendu, La Maison Dieu e Le Monde conservam composições facilmente reconhecíveis entre um fabricante e outro. Suas imagens reúnem temas herdados do fim da Idade Média e do Renascimento com o desenho direto das oficinas dos séculos XVII e XVIII.
Nas cartas numerais, os sinais dos naipes são combinados com folhas, flores e outros ornamentos. As cartas de corte são figurativas, mas as numerais não apresentam cenas completas. Essa é uma diferença visível em relação ao baralho Rider–Waite–Smith, no qual as cartas numerais receberam ilustrações narrativas.
As áreas de cor marcadas e contrastantes também se tornaram uma característica conhecida desses baralhos. A quantidade de cores e sua aplicação variavam conforme a época, o fabricante e o acabamento. Por isso, dois exemplares podem conservar praticamente a mesma cena e ainda assim produzir impressões bastante diferentes.
Tipos I e II: duas variantes da mesma família
Os tipos I e II são categorias modernas criadas por pesquisadores que compararam baralhos preservados. Cada categoria reúne detalhes iconográficos que reaparecem juntos em exemplares de fabricantes diferentes. Essa comparação ajuda a reconhecer linhas de transmissão e variações dentro da mesma família, enquanto a estrutura de 78 cartas permanece igual nos dois grupos.
No tipo I, o Louco costuma receber o título Le Fol. Na carta dos Enamorados, Cupido voa da direita para a esquerda; o Diabo traz um rosto humano no ventre; e a Lua aparece de frente, com o disco cheio. No tipo II, o Louco passa a ser chamado Le Mat, Cupido voa da esquerda para a direita, o ventre do Diabo fica vazio e a Lua aparece de perfil, como um crescente. Essas diferenças são pequenas quando cada carta é observada isoladamente. Repetidas em vários baralhos, elas permitem perceber que certas oficinas trabalhavam a partir de modelos aparentados.
O tipo I já aparece em exemplares do século XVII e pode ser observado em baralhos como os de Jean Noblet e Jean Dodal. Os exemplares conhecidos do tipo II são posteriores a 1700. O baralho de Pierre Madenié, produzido em Dijon em 1709, é o mais antigo atualmente identificado nessa variante.
Como as oficinas reproduziam e modificavam as imagens
O modo de fabricação explica por que as cartas conservaram uma aparência comum sem se tornarem cópias idênticas. O fabricante mandava gravar os contornos das imagens em matrizes de madeira. Depois da impressão, as cores eram aplicadas por meio de estênceis, cada um responsável por determinadas áreas do desenho.
As cartas eram habitualmente montadas com papéis de funções diferentes: uma folha recebia a impressão, outra dava opacidade e uma terceira formava o verso. As folhas passavam por colagem, prensagem, secagem, alisamento e corte até que as cartas fossem separadas e reunidas em baralhos. A Bibliothèque nationale de France descreve esse trabalho como uma sequência de tarefas especializadas, que também incluía retoques e verificações de acabamento.
Uma matriz permitia repetir muitas vezes a composição de uma carta. Quando outra oficina gravava seu próprio bloco de madeira, podia conservar a posição das figuras e alterar um rosto, um objeto, uma inscrição ou a forma de uma roupa. Os estênceis também mudavam a distribuição das cores. Foi assim que a iconografia permaneceu estável o bastante para ser reconhecida e flexível o bastante para gerar as variantes que hoje distinguimos.
Marselha, fabricantes e circulação
Marselha já possuía produção relacionada a essa família em 1639, como mostra o baralho de Philippe Vachier. A cidade ganhou um peso muito maior durante a segunda metade do século XVIII, quando se tornou o principal centro francês de fabricação desse padrão. Nesse período, o repertório também era produzido em cidades francesas e suíças e circulava pelo norte da Itália.
Os próprios baralhos guardam sinais dessa circulação. Nomes, endereços e marcas impressas permitem identificar fabricantes e lugares de produção. No baralho de Jean Dodal, uma inscrição é interpretada como fait pour l’étranger, “feito para o estrangeiro”, indicação concreta de que parte das cartas fabricadas em Lyon seguia para outros mercados.
No início do século XIX, Nicolas Conver representa uma fase posterior da produção marselhesa. O registro de autoridade da Bibliothèque nationale de France informa que ele nasceu em 1784 e esteve ativo em Marselha entre 1809 e 1833. Seu baralho pertence, portanto, a uma tradição que já vinha sendo construída por diferentes oficinas havia quase dois séculos.
O Tarô de Besançon
O Tarô de Besançon pertence a uma família próxima. Ele conserva a composição de 78 cartas e grande parte das convenções visuais do Tarô de Marselha, mas substitui a Papisa e o Papa por Juno e Júpiter. Essas duas figuras são seus sinais mais conhecidos.

Os exemplares mais antigos associados a esse padrão foram fabricados mais a leste. A International Playing-Card Society registra exemplos de Constança por volta de 1680, Estrasburgo em 1746 e Mannheim em 1750. Besançon se tornou um centro importante dessa produção apenas por volta de 1800, quando o baralho já circulava pelo leste da França, pela Suíça e por territórios germânicos.
A comparação mostra como os nomes geográficos podem designar famílias que atravessaram cidades e fronteiras. As oficinas preservavam uma base comum e ajustavam títulos, personagens e detalhes às tradições que recebiam. No caso de Besançon, Juno e Júpiter se tornaram a diferença mais visível, embora o motivo exato dessa substituição não esteja estabelecido pelas fontes conhecidas.
Quando surgiu o nome “Tarô de Marselha”?
Os baralhos hoje reunidos sob o nome Tarô de Marselha já circulavam havia muito tempo quando a expressão apareceu por escrito. A primeira ocorrência até agora localizada de tarot de Marseille está num relatório de Romain Merlin publicado em 1856, a partir da Exposição Universal de Paris do ano anterior. Merlin empregou o nome ao distinguir essa família do Tarô de Besançon.
A expressão tinha uma função prática: identificar um padrão por meio do centro produtor que havia adquirido maior importância. Mais tarde, estudiosos e ocultistas adotaram o rótulo, que acabou abrangendo também baralhos anteriores fabricados em Lyon, Paris, Dijon e outras cidades. O nome chegou no século XIX; as imagens que ele passou a reunir vinham circulando desde o século XVII.
Do jogo à leitura divinatória
Os primeiros documentos franceses apresentam o tarot como jogo. Rabelais o incluiu entre os passatempos conhecidos de seu tempo, e Michel de Marolles descreveu suas regras em 1637. Os baralhos de Marselha foram produzidos e utilizados nesse contexto muito antes de receberem interpretações esotéricas sistematizadas.
Essa mudança começou a ganhar forma no fim do século XVIII. Em 1781, Antoine Court de Gébelin relacionou o tarot a uma antiga sabedoria egípcia. Entre 1783 e 1785, Jean-Baptiste Alliette, conhecido como Etteilla, publicou seus trabalhos sobre a leitura divinatória do tarot. Foi nesse novo contexto que se multiplicaram as hipóteses sobre a origem do tarot e as correspondências esotéricas atribuídas às cartas. A transformação do tarot em prática divinatória e ocultista pertence a essa fase posterior de sua história.
Uma história construída nas oficinas
A história do Tarô de Marselha aconteceu nas oficinas. Um fabricante recebia imagens já conhecidas, gravava novas matrizes, escolhia títulos e cores e colocava suas cartas em circulação. Outro repetia a estrutura e alterava pequenos elementos. Nesse trabalho acumulado, os desenhos conservaram sua identidade e, ao mesmo tempo, produziram as variações que hoje permitem acompanhar seu caminho.
Vachier, Noblet, Dodal e Madenié ocupam pontos diferentes desse processo. Marselha ganhou importância com o crescimento de sua produção, os baralhos atravessaram fronteiras e o nome surgiu quando a família já possuía uma longa história. O resultado foi um repertório visual capaz de atravessar fabricantes, cidades e usos distintos — primeiro como jogo e, muito mais tarde, também como instrumento de leitura divinatória.
Bibliografia
Baralhos e documentos históricos
- Alliette, Jean-Baptiste, conhecido como Etteilla. Manière de se récréer avec le jeu de cartes nommées tarots. Paris, 1783–1785. Caderno de 1783 digitalizado pela Gallica/BnF.
- Court de Gébelin, Antoine. “Du jeu des tarots”. In: Monde primitif, analysé et comparé avec le monde moderne, tomo VIII. Paris, 1781. Edição digital.
- Dodal, Jean. Tarot de 78 cartas. Lyon, 1701–1715. Bibliothèque nationale de France, FRBNF40918567.
- Marolles, Michel de. Règle du jeu des Tarots. Nevers, 1637. Texto estudado e transcrito em Depaulis, 2002.
- Merlin, Romain. “Calligraphie, gravure des cartes à jouer et cartiers”. In: Exposition universelle de 1855. Rapports du jury mixte international, tomo II. Paris, 1856, p. 644. Registro institucional.
- Noblet, Jean. Tarot, c. 1659. 73 cartas preservadas. Bibliothèque nationale de France, FRBNF43634904.
- Rabelais, François. Gargantua, capítulo XXII, c. 1534–1535. Bibliothèques Virtuelles Humanistes, Université de Tours.
- Vachier, Philippe. Tarot de 78 cartas. Marselha, 1639. Catálogo do exemplar.
Catálogos e estudos
International Playing-Card Society. Tarot de Besançon. Pattern Sheet 6. Documento.
Bibliothèque nationale de France. Jeux de princes, jeux de vilains. Material documental sobre a fabricação e os usos das cartas no Antigo Regime. Documento.
Bibliothèque nationale de France. Registro de autoridade de Nicolas Conver, FRBNF16721159.
Decker, Ronald; Depaulis, Thierry; Dummett, Michael. A Wicked Pack of Cards: The Origins of the Occult Tarot. Londres: Duckworth; Nova York: St. Martin’s Press, 1996.
Depaulis, Thierry. “Quand l’abbé de Marolles jouait au tarot”. Le Vieux Papier, n.º 365, 2002, p. 313–326. Texto.
Depaulis, Thierry. “When (and how) did Tarot reach Germany?”. The Playing-Card, v. 39, n.º 2, 2010. Texto.
Depaulis, Thierry. “The ‘Tarot de Marseille’ — Facts and Fallacies”, partes I e II. The Playing-Card, v. 42, n.º 1 e 2, 2013, p. 23–43 e 101–120. Dados bibliográficos da parte I e da parte II.
Depaulis, Thierry. “‘Trionfi alla franciosa finiti e non finiti’ — le tarot en France avant 1500”. The Playing-Card, v. 44, n.º 3, 2016, p. 201–209. Dados bibliográficos.
Depaulis, Thierry. “Un tarot de Marseille de 1639!”. Le Vieux Papier, n.º 447, janeiro de 2023, p. 194–200.
Depaulis, Thierry; McLeod, John. Le Tarot révélé: une histoire du tarot d’après les documents. La Tour-de-Peilz: Musée Suisse du Jeu, 2013. Texto.
Dummett, Michael. The Game of Tarot: From Ferrara to Salt Lake City. Londres: Duckworth, 1980.
International Playing-Card Society. Tarot de Marseille, Type I. Pattern Sheet 001, 2018. Documento.
International Playing-Card Society. Tarot de Marseille, Type II. Pattern Sheet 002, 2018. Documento.